abril 01, 2004

Newsletter #1

2002.Set.27
versão em pdf (23kb)
Na próxima segunda-feira, dia 30 de Setembro, faz 50 dias que chegámos à Tanzânia!
É uma boa altura de fazer um breve apanhado do que tem sido estes dias, num país diferente, com uma língua nada parecida com o que estamos habituados, e uma cultura completamente nova.
Como no fim-de-semana não estaremos por cá (vamos passear :) ), achei por bem antecipar a “comemoração” destes «siku hamsini» (50 dias), escrevendo hoje e, fazendo deste texto o primeiro (de muitos espero!) da tão famosa e prometida newsletter.

Chegamos a Dar-es-Salam (capital económica da Tanzânia) no dia 12 de Agosto, depois de uma viagem de 14horas e meia de autopulman, vindos de Nairobi. Durante a viagem não conseguimos ver o famoso Kilimanjaro pois estava encoberto! Conseguimos, isso sim, ir dormitando a espaços pois, apesar de ser um autocarro de luxo e de nós irmos nos dois lugares da frente, tínhamos aos nossos pés alguma da bagagem (impressora, computador, mochila de mão…)

A passagem na fronteira foi uma experiência verdadeiramente fabulosa! Primeiro tivemos todos que sair do autocarro para carimbar os passaportes com o visto de saída, no Quénia. Tornámos a entrar e, dez metros à frente, tornámos a sair, desta vez para carimbar o passaporte com o visto de entrada na Tanzânia. Não tivemos problemas pois tínhamos as autorizações de residência connosco (Residence Permit). A aventura maior foi tirar as bagagens (duas grandes malas, mais dois grandes sacos, tudo pesadíssimo :( ) para passar na alfândega. Aqui ficamos ligeiramente preocupados, pois pensámos que fosse preciso abrir tudo. Afinal, fazer as malas já tinha dado trabalho que se chegasse e tinha sido preciso bastante força para fechar duas delas. Felizmente acabámos por só abrir duas (as mais fáceis) pois enquanto andávamos às voltas com as chaves dos aloquetes, o funcionário perguntou o que tinham e nós respondemos roupa e calçado (o que era verdade), e ele limitou-se a por um visto com giz nas malas todas.

Lá seguimos viagem e chegámos a Dar-es-Salam perto das 21.30, hora local.
Tornámos a carregar com as malas e, depois de encontrarmos um taxista, lá nos pusemos a caminho. A noite estava quente (22graus), e via-se algum trânsito nas ruas.
Apesar de o Pe. Inverardi nos ter dado as instruções para chegarmos à casa, mesmo assim o motorista ainda teve que perguntar duas vezes o caminho!
Finalmente chegámos e tínhamos à nossa espera o nosso novo Superior, o Pe. Inverardi, que nos deu as boas vindas, acompanhadas de um jantarinho que nos soube pela vida! Não que tivéssemos fome, mas sim pela satisfação de termos chegado bem! Também tínhamos à espera as primeiras notícias de boas vindas. O Ricardo e a Elisabete ( outro casal de Leigos Missionários da Consolata) que estão a trabalhar em Moçambique, tinham mandado um e-mail no início do mês para quando nós chegássemos. Foi realmente uma alegria poder ler aquelas linhas em português!
O quarto onde nos instalaram parecia-nos de um hotel de 5estrelas!! Ventoinha, rede mosquiteira, cama super confortável, e com casa de banho! Estas últimas palavras podem parecer estranhas, mas depois dos dias (maravilhosos) que tínhamos passado no Quénia, com o mínimo de condições (às vezes sem casa de banho como as conhecemos) acreditem que parecia um hotel de luxo!

No dia seguinte pusemo-nos a caminho de manhã cedo, pois tínhamos mais uns 500km a percorrer até Iringa, nosso destino final.
Pelo caminho, feito desta vez num jipe, além de dormir a maior parte do tempo (é um facto, não sou grande companhia para viagens!) ainda deu para vermos macacos, girafas, zebras e até tirámos fotografias a uns elefantes que estavam mesmo à beira da estrada!
A estrada não é muito má (em especial se compararmos com o resto das estradas-caminhos daqui), mas está a ser “remendada” nalguns sítios; assim, de cada vez que fazíamos um desvio por causa das obras, os nossos ossos eram novamente chocalhados. A isto se chama, ossos do ofício!
Parámos em Morogoro, para tomar um cházinho e comer uma frutita. As papaias daqui são as mais doces!
Chegámos a Iringa ao princípio da tarde. Iringa fica num planalto, e eu sei isso porque quando vínhamos a subir eu vinha acordada! A subida fez-me lembrar as estradas portuguesas da zona de Trás-os-Montes e do Gerês. Mas assim que se entra na cidade, não mais se tem a noção de se ter subido tanto!
Nesta noite ficámos na Casa Regional, onde ao jantar tivemos oportunidade de comer um queijinho italiano, ou não fossem a maioria dos padres de Itália. As Irmãs que lá estavam ainda se lembravam do Paulo, dele lá ter estado no ano anterior!

No dia seguinte tornámos a levantar-nos cedo, pois era dia de festa em Mgongo! A Igreja ia ser consagrada. Ora digam lá se não há coincidências interessantes? Chegamos a tempo de tão importante festa! Além do mais, Mgongo será a missão onde vamos trabalhar, após terminarmos o curso de kiswahili. Fica mais/menos a uma distância de 45 min. de carro. As distâncias aqui são mais fáceis de medir em unidades de tempo, pois as estradas nem sempre são muito transitáveis.
A festa foi digna desse nome, cheia de cânticos e danças, bem ao estilo africano!
E de tarde ainda houve uma demonstração de Karaté, que os miúdos da Faraja House (Casa da Consolação, casa de acolhimento a crianças de rua), bem como algumas peças de “teatro” e músicas, feitas não só pelas crianças, mas também pelos coros.
A festa estava realmente muito boa, mas tivemos que vir embora, pois ainda tínhamos que dar entrada na escola onde íamos passar os próximos 4 meses.

A escola de kiswahili faz parte de um complexo que funciona como hotel e centro de conferências. É um centro Baptista mas os professores e todo o pessoal que aqui trabalha (desde cozinheiros até ao gerente) são de diversas religiões. Aliás, os alunos também! Neste momento somos 2 católicos (portugueses), 2 protestantes (japoneses), 2 anglicanos (ingleses), 1 presbiteriana (coreana) e 6ou7 baptistas (americanos) (estes últimos só chegaram à duas semanas por isso não sabemos muito sobre eles ainda).
Ou seja, além das diferentes religiões, temos diferentes nacionalidades. Só temos uma coisa em comum: somos todos «wazungos» - brancos/estrangeiros!

Este centro fica situado em Huruma que está a uma distância de +/-30min. a pé de Iringa. A estrada é sempre a direito e um terço dela é em terra batida. tendo em conta que o clima é extremamente seco, podem imaginar a poeirada!
Estamos também a uma distância de 1hora da Igreja da Consolata (que fica no ponto mais alto da cidade), 1hora e meia da Casa Regional, 15min. da Igreja de Don Bosco e meia-horita da casa das Irmãs da Consolata (estes dois últimos na mesma direcção).
Nota: todas as distâncias são percorridas a pé.

Iringa, em relação ao ano anterior quando o Paulo cá esteve, mudou um bocadinho. Agora existem pelo menos 5 “Internet café” (que de café só tem o nome), em comparação com o único do ano anterior, que ainda não estava a funcionar a 100%.
No entanto, não é por isso que haja mais das outras coisas!

Os nossos dias são passados quase todos aqui no centro.
Temos 5 horas de aulas por dia, à semana, das 8.00 às 12.30 e das 14.00 às 15.00.
Geralmente íamos à cidade depois das aulas, pelo menos 3 vezes durante a semana. Íamos até à net saber novidades e verificar o correio, dar uma volta pela cidade, passar pelo mercado, ir até à loja buscar algumas bolachas, enfim, passear. Nos dias que não íamos, ficávamos a dormir ou a estudar.
Nos fins-de-semana, aproveitamos para dormir mais um bocadinho e para estudar mais alguma coisa. Já temos ido jantar/almoçar à Casa Regional (depois o regresso é feito de carro que o Pe. Inverardi traz-nos ? ), já passámos um domingo em casa das Irmãs, ou então jantar a casa de um casal americano que conhecemos aqui nas aulas. Eles já terminaram o curso, mas continuámos a manter contacto.
Por aqui dá para ver que o ambiente é bom entre os alunos. Apesar das nossas diferenças, damo-nos bem!

Já tivemos algumas aventurazitas!
No primeiro domingo que cá passámos, fomos à missa à paróquia da Consolata (a tal que fica no ponto mais alto da cidade!). Pensámos que a missa era às 9.00 pois era isso que nos tinham dito. Lá nos levantámos cedo para ter tempo de comer alguma coisita antes de sair. Quando lá chegámos, esperámos que a eucaristia que estava a decorrer acabasse e fomos cumprimentar o Padre. Convidou-nos para um chá e conversámos um bocadinho. Conhece o Pe. Casimiro (que vem para cá em Janeiro) e disse-nos que, nesse domingo, ia haver casamentos. Bem, pensámos nós, mais uma nova experiência! E foi o que aconteceu! A eucaristia só começou já perto das 10.00 e os casamentos (14-quatorze) foram realizados no meio. Tendo em conta que o Padre pergunta a cada um dos nubentes as perguntas como nós as conhecemos… façam as contas! Apesar de tudo foi uma cerimónia muito bonita. A nossa sorte foi pelo caminho de regresso apanharmos boleia de um dos grandes aqui do centro. Senão íamos chegar atrasados para o almoço (13.00)!

Como a paróquia fica bastante distante, em especial se tivermos que ir a pé, optámos por ir à missa à Igreja de Don Bosco. As Irmãs da Consolata também lá vão, pois estão perto.
Da primeira vez que fomos, perdemo-nos!! Tinham-nos dito que era mais/menos 15 min., e que pelo caminho se via a torre com o sino. Passado mais de 10 min. a andar começámos a achar que não íamos bem. Mas, como aqui em África as distâncias são relativas, decidimos continuar a andar mais um pouco. Finalmente decidimo-nos a pedir ajuda. No pouco kiswahili que sabíamos, interpelámos um Mzee (senhor) que ia com a sua bicicleta e lá percebemos que tínhamos que fazer todo o caminho para trás novamente! O nosso engano tinha sido logo no início da caminhada!! Felizmente chegámos a tempo pois tínhamos saído com bastante antecedência!

As eucaristias em que participámos são sempre em kiswahili, o que é bom pois vamos habituando o ouvido à língua e vamos vendo até ponto já percebemos ou não. Seguimo-las por um livrinho que nos foi dado no Quénia e as leituras pelo Novo Testamento em kiswahili que trouxemos de Portugal.

Em cima escrevi que íamos à cidade ver a net, porque agora já não vamos mais! Desde a semana passada que temos ligação à Internet aqui no centro! Não é tão rápida e, às vezes durante a tarde, não funciona. Mas poupa-nos a viagem a pé à cidade e é mais barata. Na cidade meia hora (eles dão sempre 35 a 40 min.) custa 500tsh (shilingi Tanzaniano), aqui meia hora são 400tsh (com a vantagem de como eles não têm contador, às vezes fica-se sempre mais uns minutitos a acabar as conversas ou a descarregar o correio; mas não abusámos!).

O câmbio é qualquer coisa como 1 dólar dá entre 900 a 100tsh.
A viagem de daladala (autocarro) até à cidade são 100tsh, independentemente do ponto da estrada onde se entra. Uma soda (coca-cola, fanta, …) são 250tsh, uma embalagem de leite em pó Nido de 250gr. são 1700tsh, um iogurte são 125tsh, uma embalagem de Omo de 500gr são 500tsh, uma barrita de sabão (parecido com o nosso sabão azul ou cor de rosa, mas mais pequeno) são 100tsh.
Este são alguns preços que já sei mas ainda não dá para fazer uma boa ideia do custo de vida.
Se formos ao mercado comprar fruta ou arroz é aconselhável regatear os preços!
Um bom salário (a alguém que tem uma espécie de curso profissional) são 200tsh por dia.
O salário mínimo (que pouquíssima gente recebe) são 42 000tsh, bruto.

E prontos, assim é um pouco desta nova vida a nos estamos a habituar.
Acho que para começo já dá para fazerem uma ideia de como nós estamos.

Não percam as próximas aventuras (viagem de daladala :) ) nas próximas newsletters!

Beijinhos e abraços para todos e até à próxima!

Teresa e Paulo
LMC
Tanzania

Publicado por Teresa Silva em abril 1, 2004 04:18 PM
Comentários