abril 01, 2004

Newsletter #2

2002.Nov.04
Olá a todos!

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Finalmente cá estamos a dar notícias! Por incrível que pareça, já fez um mês, desde que vos demos as primeiras notícias, desta nossa nova vida.
Se bem se lembram, começamos a última newsletter a dizer que íamos passar o fim-de-semana fora. Pois é exactamente por aí que vamos começar!

Nos últimos dias de Setembro, o Pe. Inverardi partiu para Itália, para a Consulta Intercapitular do IMC (Instituto Missionário da Consolata).
Antes de partir ainda nos trouxe uma surpresa! O Pe. Silvanus, que estava de regresso a Portugal, depois de umas bem merecidas férias (para quem não souber, o Pe. Silvanus é tanzaniano e está a trabalhar no seminário da Consolata em Águas Santas; foi com ele que começamos a aprender o kiswahili). Foi bom estar um bocadinho com ele e falar português! (se bem que nessa altura, já misturávamos kiswahili, com inglês, português e até italiano ? estamos a ficar uns poliglotas!).
Aproveitámos para mandar lembranças para as nossas mães, porque mandar alguma coisa pelo correio é um balúrdio!!

Como sabíamos que o Pe. Inverardi iria ficar fora até Novembro, ficámos um bocadinho apreensivos! Afinal, ele sempre nos vinha visitar/falar/saber como as coisas estavam, pelo menos uma vez por semana. Agora, com ele para fora por dois meses pensámos que nos ia custar bastante este tempo. Mas o Senhor não nos desampara nunca!

E eis senão quando na sexta-feira, o Pe. Dário (italiano, a trabalhar aqui há um ano e pouco) aparece a convidar-nos para ir passar o fim-de-semana a Matembwe. Claro que aceitámos!
Assim, sábado de manhã metemo-nos à estrada. Matembwe fica no sul da Tanzânia e demorámos 6 horitas. Nem foi muito desagradável, pois ainda parámos em Mafinga, em Makambako (para um cházinho e esticar as pernas) e em Njombe (para levantar o correio da missão).
Pelo caminho apanhámos chuva!! Podem imaginar?! Bem, não era chuva forte, mas tínhamos que ir com o limpa pára-brisas ligado! Atravessámos também uma extensão enorme (bem mais de 20km) de floresta de pinheiros. Parecia que estávamos no Norte da Europa, tal era a paisagem!
Como à medida que se vão cortando os pinheiros, se estão a plantar outros, nalgumas partes mais parecia uma exposição de árvores de Natal! Havia de vários tamanhos e feitios. O mais interessante era quando no meio de alguns pinheiros, se encontravam bananeiras!
De Njombe (cidade) até Matembwe (missão) ainda são perto de 50km. Infelizmente, este foi o troço que mais custou a fazer. Não existe estrada digna desse nome e, já aconteceu, em especial na época das chuvas, o carro ficar preso na lama.
As “estradas” que ligam a missão às localidades, são assim, ou piores! A ponto de 10km levar uma hora a fazer!
Quando chegámos à missão, estava a ser celebrado um casamento. Como a cerimónia já estava no fim, esperámos um pouco para assim podermos almoçar todos juntos: nós e o Pe. Panero (também italiano, com mais de 20 anos de Tanzânia).
No fim da cerimónia, os noivos foram agraciados com danças e cânticos, antes de partirem para a “boda”.

Durante o almoço, chegámos à conclusão que, em vez de dois dias, íamos cá ficar 4!! É que o Pe. Dário pensava que o Pe. Panero ia para Iringa domingo depois do almoço ou, no máximo, segunda de manhã. Mas afinal o Pe. Panero só ia terça depois do almoço! Nós não tínhamos maneira de regressar pelos nossos meios, e além disso, a ideia de estar uns dias fora do ambiente do Centro e poder passá-los numa missão agradou-nos imenso! O único contra era que não havia maneira de avisar ninguém que nós iríamos demorar mais do que o previsto. A missão não tem Internet e muito menos telefone. As comunicações fazem-se via rádio. Todos os dias, por volta das 20.15, todas as missões na Tanzânia se “encontram no rádio”. É a maneira de todas as missões se manterem unidas, pois para algumas não existe outro meio de comunicação!

No fim do almoço ainda demos um salto à boda. Foi interessante ver as diferenças que existem entre as nossas culturas. Para começar, primeiro foram servidos os convidados importantes (pais dos noivos, padres e nós; sendo wazungos adquirimos logo outro estatuto) e só depois os noivos. Os noivos não estavam nada alegres! Mais parecia que lhes tinham feito algum mal! Quando perguntámos o porquê, disseram-nos que tinha que ser assim! Os noivos não podiam mostrar alegria por deixarem a casa dos pais, daí as suas faces sombrias (claro que o facto de os noivos já estarem juntos à mais de um ano, não queria dizer nada!) Apesar de já termos almoçado, comemos um bocadinho, para não desrespeitarmos ninguém. Regressámos à missão e fomos descansar um bocadinho, até às 18.30, hora em que rezamos as vésperas, juntamente com a comunidade.

No dia seguinte, domingo, acompanhámos o Pe. Dário a Image, uma localidade que apesar de ficar a 10 km de distância, levou-nos perto de uma hora a percorrer. No caminho passámos pela barragem que o Pe. Pequito construiu para levar eletricidade a várias localidades à volta. (Para aqueles que não sabem, o Pe. Pequito era um missionário da Consolata, português.).
Enquanto o Pe. Dário ministrava a sacramento da reconciliação, aproveitámos para praticar um bocadinho o nosso kiswahili com alguns membros daquela comunidade, em especial com as crianças, e com um senhor de idade indefinida, um verdadeiro Mze, que apesar de já não ver direito, fez questão de posar para a nossa câmara!

Durante a eucaristia, mais/menos a meio, uma senhora toca no ombro do Paulo. Ele vira-se e, qual não é o seu espanto, quando a vê com um pau, de tamanho razoável, na mão. Fica muito espantado, sem saber bem o que pensar quando a senhora lhe diz: “Bwana, bwana! Nyoca! Sumo sana!” e aponta para o chão. O nosso kiswahili já é mais que suficiente para perceber que a senhora tinha dito que estava ali uma cobra, com veneno! E realmente, lá estava ela, para aí com uns 10cm, a passear junto dos cordões das botas do Paulo. Todos os que estávamos ali à volta levantamo-nos assustados, e era ver a senhora cheia de força a dar com o pau na cobra! Entretanto, o Pe. Dário como estava no altar não percebeu bem o que se estava a pensar. Pensou que alguém se tinha sentido mal e estava a receber massagens cardíacas (pois a única coisa que ele conseguia ver era o braço da senhora a subir e a descer). Escusado será dizer que o Paulo passou o resto da celebração a olhar para o chão à espera de ver aparecer algum parente do animalzinho! No fim quando contámos ao Pe. Dário ainda nos rimos um bocadinho (só passado uns dias é que viemos a saber que era realmente uma cobra perigosa: era uma naja que, apesar de ser nova, já tinha veneno suficiente para fazer alguns estragos!).

Durante a tarde visitámos a missão. Vimos os animais que ali são criados (desde vacas, galinhas a coelhos, que pudemos saborear a algumas refeições), a horta com bastantes vegetais, a serralharia, um mini-hospital, a escola de costura e a escola das crianças.

Segunda de manhã levantámo-nos às 6.00 da manhã para assistirmos à missa matinal, juntamente com a comunidade. Depois do pequeno-almoço, acompanhámos o Pe. Dário na visita às salas de aula onde fomos entusiasticamente recebidos com vários “Ciao”! Ao que o Pe. Dário replicou dizendo que nós não erámos italianos, mas sim portugueses. Lá dissemos olá e, durante a tarde e o dia seguinte, quando nos cruzávamos com alguns dos meninos erámos agraciados com uns “Olá” bem calorosos!
Mas o dia não acabou sem uma notícia triste. Após as vésperas, fomos com o Pe. Dário visitar alguns dos doentes que estavam internados. Quando chegámos à enfermaria das mulheres, algumas estavam a chorar. Disseram-nos então que uma doente tinha falecido. Era uma rapariga com 23-25 anos que tinha dado entrada à uns dias. Quando perguntámos de que é que tinha morrido, não nos disseram. Disseram apenas “a doença dos dias de hoje”, isto é, Sida. A rapariga deixou 3 filhos para criar e, soubemos depois, o companheiro já a tinha abandonado à algum tempo e estava a viver noutra aldeia com outra rapariga. Algumas questões se põem: será que ele está infectado? Será que ele vai infectar a outra rapariga? Quem vai cuidar das crianças? Apesar de já sabermos que a Sida é um dos maiores problemas da Tanzânia, foi a primeira vez que fomos confrontados directamente com a situação.

No dia seguinte, o Pe. Dário ia celebrar missa a aldeiazinha à volta da missão, uma das comunidades de base. Nós também fomos, e como íamos passar na aldeia de onde era a rapariga, levámos o corpo e alguns dos familiares. Foi uma experiência algo estranha! A estrada, para variar, era bastante acidentada e, como íamos numa carrinha de caixa aberta, volta e meia o corpo, apenas embrulhado em lençóis, saltava devido aos buracos. É esquisito quando pensámos que em Portugal, mesmo nas famílias mais pobres, existe sempre um caixão para transportar o ente querido condignamente. Mais um sinal da extrema pobreza que afecta o povo tanzaniano, em especial nas aldeias.

A aldeia onde chegámos é mesmo um conjunto de pouco mais de dez famílias. A celebração foi feita num espaço aberto que fica no meio de quatro ou cinco casas. É o sítio onde as pessoas se reúnem para tratar dos assuntos da comunidade, onde as crianças brincam e, onde se celebra a missa, quando o Padre lá vai. Os catequistas e mais algumas pessoas puseram umas tábuas a servir de cadeiras, e toda a gente pode-se sentar. Toda a gente canta, apesar de só haver 3 ou 4 cadernos onde as músicas estão escritas. Neste dia era dia de Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira das Missões. O Pe. Dário apresentou-nos durante a homilia e disse que nós éramos missionários, como ele, que vinham durante uns tempos trabalhar com o povo tanzaniano, mais concretamente com as crianças da Faraja House. Disse que vínhamos de Portugal, terra do Pe. Pequito e, no fim, as pessoas agradeceram-nos o termos vindo e ainda havia quem se lembrasse do Pe. Pequito! Como é costume, no fim da celebração fomos convidados a partilhar da refeição na casa do catequista, juntamente com alguns dos elementos, representantes, da comunidade. Infelizmente não nos podíamos demorar muito, pois tínhamos que arrumar as coisas para nesse dia regressarmos a Iringa.
Lá regressámos e, depois do almoço partimos com o Pe. Panero de regresso a Iringa.
No caminho tornámos a parar em Makambako para um cházinho e falámos um bocadinho com o Pe. Aldo.
Desta vez a viagem demorou menos uma hora, pois o Pe. Panero gosta bem de carregar no acelerador!
Chegámos por volta das 18.30, mesmo a tempo para o jantar, e encontrámos toda a gente preocupada! Já pensavam que tínhamos desistido, ou que tinha acontecido alguma coisa, pois ninguém sabia onde estávamos! Como não tínhamos tido maneira de comunicar…

Podemos dizer que não podíamos ter começado da melhor forma o mês de Outubro, mês Missionário por excelência!
Foram 4 dias onde vimos mais de perto a realidade da vida missionária E acreditem que, ser missionário num país como a Tanzânia às vezes custa! Mas também traz as suas alegrias. A lembrança daquela comunidade de base a agradecer-nos o facto de nós estarmos ali, dá-nos alento para enfrentar as pequenas dificuldades do dia-a-dia.

Como esta crónica já está comprida, deixamo-vos com duas fotos nossas acompanhados do Pe. Dário.

O resto do mês segue na próxima.

Até breve,

Teresa e Paulo
LMC
Tanzania

Publicado por Teresa Silva em abril 1, 2004 04:23 PM
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