abril 01, 2004

Newsletter #5

2003.Jan.12
Olá a todos,

Cá estamos em Mgongo, e já se passou um mês desde que aqui chegámos!

A última newsletter acabou com a nossa saída da escola de kiswahili. Essa noite passamo-la na Casa Regional e, no dia seguinte participámos num pequeno retiro lá realizado. O tema era “Umuhimu wetu katika fumbo la ukombozi” (A nossa importância no plano de salvação) e foi em kiswahili. Não vamos dizer que percebemos tudo ? mas algumas coisas já vamos apanhando.
Mas logo ao pequeno-almoço tivemos uma notícia triste. A missão de Matembwe tinha sido assaltada na noite anterior. Além de bastante dinheiro entre euros, dólares e tshillingis que os ladrões levaram (dinheiro destinado à construção total de uma igreja em Image) o Pe. Dário foi agredido. Infelizmente, os roubos a missões começam a ser frequentes por aqui!

Ao fim da tarde, depois de terminado o retiro, o Pe. Franco recém-chegado de Itália veio-nos buscar para irmos para Mgongo, para a casa que será nossa nestes 3 anos.Á nossa espera estavam todos os rapazes que estão na Faraja House para nos darem as boas vindas. Nesse dia foi mesmo só um olá muito breve, pois já era tarde.

No dia seguinte lá desfizemos as malas e a, verdadeiramente, instalar-nos na casa. Como ainda não estava tudo pronto, a nível de utensílios, especialmente, nos primeiros dias tomámos as refeições na casa dos padres, com a comunidade: Pe. Franco, Pe. Júlio, ambos italianos e o Ir. Bonifácio, queniano.

Na terça-feira, dia 10 foi a “cerimónia oficial” de boas vindas. Jantámos todos na Faraja House e, no fim do jantar, fomos brindados com um espectáculo cultural e recreativo organizado pelos rapazes e até tivemos direito a bolo!

Os primeiros dias foram passados a arrumar a casa e a conhecer os cantos à Missão e as pessoas que cá trabalham. Participámos numa reunião com os professores da escola técnica, fomos até aos campos de cultivo, vimos o dispensário… Fomo-nos ambientando.
E fomos começando a trabalhar! O Paulo começou por dar uma de carpinteiro e fez alguns trabalhos de manutenção, em especial nos quartos dos miúdos. Desde camas a portas, havia bastante coisa a precisar de reparação. E claro, não esquecendo da familiarização com os miúdos.

Não foram dias muito fáceis! Todo o cansaço de fazer e desfazer malas, o facto de estarmos num sítio (apesar de muito apetecido) novo, todas as pequenas coisas que faltavam na casa, o não nos podermos expressar da melhor maneira (há sentimentos difíceis de explicar em português, quanto mais em kiswahili, inglês ou italiano!) e, principalmente os poucos meios de comunicação existentes (na escola tinhamos internet todos os dias, aqui nem o telefone funcionava em condições) fizeram com que sentíssemos de maneira um pouco mais forte a solidão. Não que estivéssemos sozinhos, mas a distância dos familiares e amigos, nestas alturas sente-se mais. No entanto, aos poucos as coisas foram-se compondo. Aliás, com tantas crianças à volta é difícil estar muito tempo triste.

Entretanto ainda não tínhamos as nossas cartas de condução e faltavam-nos algumas coisas para podermos começar a fazer as refeições na nossa casa. Para isso teríamos que ir a Dar-es-Salam e, no dia 15 lá fomos com o Pe. Júlio e o Ir. Bonifácio (que ia de férias) até à capital económica do país. Foi uma longa viagem, perto de 9 horas! Mas tudo correu bem. Dar-es-Salam é uma cidade quente. Mas é um calor húmido e mesmo à noite só se está bem debaixo de uma ventoinha ou ar condicionado!

Nessa noite tivemos que ir jantar fora, pois a cozinheira tinha adoecido. Imaginem que fomos comer a um restaurante italiano. Fantástico! Já agora um pormenor: a 2ª língua mais falada na ilha de Zanzibar é o italiano. No dia seguinte o Pe. Júlio levou-nos a fazer compras e aproveitámos para ver um bocadinho de cidade. Pela primeira vez na vida, vimos o Oceano Indico. Que saudades de dar um mergulho!

Muita gente na rua e muito trânsito também, mas achámos que era uma cidade um bocado suja! Nas ruas vende-se de tudo, desde a tradicional bijutaria e peças de madeira, t-shirts e sapatos e até livros técnicos de economia, informática e outros. Os vendedores tentam entre o inglês e o italiano convencer-nos a comprar. Ainda passámos no mercado principal da cidade “Soko Kariakoo” mas foi de carro e acho que não me atrevia a meter lá no meio. Para terem uma ideia imaginem o Bolhão com o dobro do tamanho e 5vezes mais pessoas! Um pandemónio!

De tarde fomos até à”zona das estátuas” ?. Uma rua onde loja sim loja sim se encontra todo o tipo de souvenirs que os europeus tanto gostam de levar de África. Como por exemplo, kangas, kitenges, sandálias, missangas e, as mais apetecidas peças em madeira, as esculturas Makonde. A serem feitas ali mesmo à nossa frente. Infelizmente só foi mesmo para regalar os olhos, mas um dia lá voltaremos para umas compritas ?

Na terça-feira começou a nossa aventura das cartas de condução. Pelo que sabíamos só era preciso assinarmos uns papéis e prontos. Mas revelou-se algo mais complicado! Quando fomos até ao posto da polícia para resolver isso a resposta que nos deram foi: “kesho” (amanhã), uma resposta que é muito usual por aqui. Sendo assim, lá fomos embora e aproveitámos para comprar um telemóvel. Um luxo que nos dispusemos a comprar para poder ser mais fácil comunicar com Portugal.

No dia seguinte, às 6.30 da manhã, já estávamos em frente ao Posto da Polícia. No entanto ainda tivemos que esperar mais de 4 horas até vermos que as coisas começavam a ser resolvidas. Ainda tivemos que ir até ao hospital fazer um exame aos olhos. Teve o seu quê de interessante pois eu, sem óculos, já começo a ter dificuldade em ver a uma certa distância. No entanto, a fotografia para a carta de condução não tem óculos! Algumas letras foi o Paulo que me disse e outras fui eu que fiz batota e olhei com os dois olhos, em vez de só com um. Mas o exame era só um pró-forma, pois como já se tinha pago, não havia problema. Este é um dos grandes problemas do país! Toda a gente quer receber subornos, seja pelo que for e, sem pagar, dificilmente se conseguem as coisas! Mas o importante é que, no fim da manhã, tínhamos as cartas na nossa mão. Agora só faltava mesmo o carro!

Quinta-feira de manhã lá partimos de regresso a Mgongo, desta vez com mais 4 pessoas. A irmã e cunhado do Pe. Júlio, mais uma cunhada dele e uma amiga. Visitantes que vinham passar uns dias à missão.
De regresso ao trabalho, era necessário fazer o presépio pois o Natal estava a bater à porta. O Paulo e alguns dos rapazes encarregaram-se disso, enquanto eu ia ajudando a Prof. Annete a terminar os presentes para a noite de Natal. E para nos irmos preparando também espiritualmente, durante os dias que precederam o Natal tivemos a Novena de Natal.

Finalmente chegámos à Véspera de Natal. Como escurece cedo e é um bocadinho perigoso andar pelos campos depois do sol-pôr, a Missa do Galo foi às 6.30 da tarde. Foi uma celebração muito bonita, com cânticos e procissões e danças de louvor. No fim foram distribuídos alguns presentes pelas crianças da aldeia (rebuçados, cadernos e canetas). Nessa noite jantámos na casa dos Padres. Não havia bacalhau, mas havia panetone (bolo tradicional italiano). Entretanto lá fora a chuva caía com força e a trovoada demorava em passar. Felizmente o tempo acalmou e até deu para ligar para as nossas famílias em Portugal! (é que quando chove e/ou troveja o mais certo é ficarmos sem comunicações telefónicas).

Por volta das 10.00 noite dirigimo-nos outra vez para a Igreja onde os rapazes da Faraja e o resto do staff já se encontravam. Era o momento de abrir os presentes ?.Todos tivemos direito a prendas, incluindo o Pe. Júlio e o Pe. Franco e os visitantes. Para os rapazes as prendas eram roupa, cadrenos e canetas, sabonete e rebuçados. O Pe. Júlio foi brindado com umas ceroulas, que logo experimentou: quem disse que o Pai Natal não existe :) E eu tive direito a um Snoopy :)

 

Em nossa casa esperava-nos uma mesa de Natal composta com alguns regalos que vieram de Portugal a tempo da quadra Natalícia e um panetone (fez a vez do bolo-rei), oferta dos visitantes italianos. No dia seguinte almoçámos na Faraja todos juntos e, o resto da tarde passou-se entre jogos e brincadeiras. Mas no dia seguinte, 26 de Dezembro, também é feriado. É o chamado “Boxing day”. Nesse dia, os mais velhos foram passar o dia a Iringa enquanto que um grupo à volta de 40 rapazes (também rapazes de rua) vieram passar o dia connosco a Mgongo. Entre jogos de futebol, matraquilhos e vídeo, também eles tiveram um bocadinho de Natal. No fim todos levaram uma pequena prendinha: t-shirt, rebuçados, creme para a pele e um pouco de dinheiro

Passado o Natal veio a Passagem de Ano. Mais uma daquelas festas que estamos acostumados a passar com a família e os amigos. Desta vez foi muito diferente!

Entretanto chegaram mais 4 Italianos para cá passar um mês.

Na véspera de Ano Novo fizemos uma celebração especial para agradecer as bênçãos recebidas ao longo do ano e acolhermos 2003 com força renovada. Nessa noite jantámos só os dois e foi bacalhau, como é tradição, que a minha mãe nos tina enviado. Esperámos pelas doze badaladas para brindar e comer as passas e, depois, fiquei eu à espera que fosse meia-noite em Portugal. Desta vez posso dizer que tive 3 passagens de ano! A da Tanzânia, a de Moçambique (pois aqui conseguimos ver a televisão moçambicana) e a de Portugal. Esta foi acompanhada pelo fogo de artifício realizado em Inglaterra (pois também temos a BCC). Entretanto recebemos algumas mensagens no telemóvel e o pessoal do JMC que estava reunido em Águas Santas a celebrar a passagem de ano ainda tentou ligar! Infelizmente a rede aqui é muito fraca e apesar dos vários esforços (chamadas) que eles fizeram, não me conseguiram ouvir. Mas eu ouvi-os a falar e também assim estivemos unidos: Muito obrigado!

No dia de Ano Novo fomos todos para Iringa pois ia-se realizar uma demonstração de Karaté e iam ser realizados alguns exames de passagem de cinto. Os nossos karatecas saíram-se bem e subiram de graduação.

No dia 4 de Janeiro foi o aniversário do Pe. Franco. O Pe. Júlio também festejava o aniversário passado uns dias, mas como iria para Dar-es-Salam para levar os primeiros visitantes ao aeroporto, fez-se a festa toda junta. Ao mesmo tempo também se aproveitou para fazer a despedida de uns e dar as boas-vindas aos outros visitantes.
Algumas das prendas que os padres tiveram foram realizadas pelos rapazes com a ajuda do Paulo. Um tabuleiro de damas para cada um.

Para terminar as festas Natalícias tínhamos a Festa da Epifania para realizar. Esta celebração envolveu perto de 30 pessoas, entre os rapazes da Faraja e as meninas da aldeia. Fez-se a representação da história do 4º Rei Mago e, apesar de só se ter ensaiado 3 vezes tudo correu bem. Fizeram-se duas músicas alusivas à história e não só os soldados tinham espadas como o anjo teve direito a asas. Estes trabalhos foram realizados pelo Paulo com a ajuda dos rapazes. Faz parte do trabalho dele a área de “Trabalhos Manuais”.
 

Alguns Reis Magos

O Anjo e a Sagrada Família em Belém.

Herodes com a esposa e os guardas.

Artaban, o 4ºRei mago, a ajudar um ferido

A matança dos inocentes.
Aqui os bebés ficaram mesmo assustados e choraram a sério

No fim todos perceberam a história. Afinal, com este tipo de representações faz-se catequese. Os participantes nuca mais se vão esquecer do que aprenderam e, quem viu também se vai lembrar melhor dos ensinamentos transmitidos.

E assim foram as nossas Festas e entrámos no Novo Ano.
Um ano diferente pois vai ser vivido em Missão.
Esperámos que tenham passado bem este tempo e que o Novo Ano traga muita Paz, Amor e Alegria para todos.
Continuaremos juntos através destas notícias ao longo do ano.
Até à próxima,

Teresa e Paulo
LMC
Tanzânia

Publicado por Teresa Silva em abril 1, 2004 04:33 PM
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