abril 01, 2004

Newsletter #6

2003.Fev.07
Olá a todos!

Este mês de Janeiro passou a correr entre trabalho, surpresas, reencontros, peripécias e o começo do Ano Lectivo.

A primeira surpresa foi a chegada de um envelope de Portugal que nos tinham enviado em Novembro!!!! Nós já tínhamos perdido as esperanças em o reaver. Afinal o que aconteceu foi que ele foi dar uma voltinha pelos correios de França. Desde já fica aqui um aviso a quem nos escrever: não se admirem se demorarmos a dar resposta pois a correspondência pode demorar a chegar às nossas mãos entre 5 dias a quase 2 meses :).

Entretanto o trabalho também não pára e, aos poucos estamos a começar a ficar mais envolvidos. Uma das nossas funções é atender as pessoas que cá aparecem a pedir para ficarmos com crianças. Às vezes são mães, outras vezes são irmãs, ou até simplesmente alguém que tinha tomado conta da criança porque os pais tinham morrido. É sempre uma situação não muito agradável, até porque todos precisam de ajuda, mas é preciso fazer uma selecção pois já não há espaço nem condições na Faraja para acolher mais miúdos. É lógico que onde há perto de 70 crianças, cabe sempre mais algum. Mas também é preciso ter a consciência de não piorar as condições dos que já cá estão.

Um dos últimos a chegar foi o Emanuel. Miúdo com 9 anos que veio com a mãe e o meio-irmão bébé. O pai tinha morrido e o padrasto não queria o miúdo em casa, batia-lhe e nem o deixava ir à escola. Ele estava tão traumatizado que, no dia seguinte quando o Paulo estava a tentar brincar com ele a fazer-lhe umas cócegas, o Emanuel correu a esconder-se debaixo da mesa a soluçar de medo pois pensava que o Paulo lhe ia bater. A parte boa é que passado uns dias, já estava com outro aspecto e já brincava com os outros meninos, começando a ter um aspecto um pouco mais feliz. Vejam-no abraçado ao Nain, um dos seus novos amigos! (O Emanuel é o do lado direito)

No dia 10 tivemos o primeiro reencontro. O Pe. Norberto Louro, que cá se encontrou para um seminário fez-nos uma visita. Foi uma manhã muito boa, a matar saudades em português. Afinal tinha sido há doze anos atrás que o Pe. Norberto nos tinha “fisgado” para a Consolata.

Depois no sábado à noite tivemos o prazer de assistir a um joguinho de futebol especial. A TVMoçambique transmitiu um jogo do Porto! Foi muito bom, em especial para o Paulo :).

Durante a semana os 4 visitantes Italianos que cá estavam foram embora. Estes amigos do Pe. Franco não se limitaram a cá vir passar umas férias. Eles também vieram ajudar um bocadinho. Dois deles sãos especializados em informática e electrónica e, como tal, foram fazendo umas reparações que sempre vão sendo necessários. Aliás, a Missão também vive um bocadinho da ajuda destes visitantes que por vezes cá vêm passar umas semanas. Os familiares do Pe. Júlio que cá estiveram em Dezembro, ajudaram a fazer os uniformes para os miúdos irem para a escola. Desde já fica aqui o convite para se alguém estiver a pensar em fazer umas férias diferentes, podem cá vir que serão acolhidos de braços abertos!

Entretanto as aulas foram começando. As manhãs agora são bem mais sossegadas pois os miúdos estão nas aulas. Perto de 20 deles, que estão na Secundária, também saíram da Faraja e agora só regressarão nas férias.

Na semana seguinte, lá nos dirigimos para a Casa Regional para participar no seminário que foi orientado pelo Pe. Norberto e pelo Pe. Okello. O tema era “A nossa missionaridade aproximada ao nosso Carisma” e, desta vez foi em Inglês.
Éramos cerca de 20 pessoas. Foi uma experiência muito rica pois tivemos a oportunidade de contactar com outros missionários, a maioria dos quais já com largos anos de vida missionária. E se pensarmos que alguns chegaram a contactar de perto com alguns dos primeiros missionários no Quénia… Além dessa partilha de experiências ficámos também a conhecer um bocadinho mais a realidade da Missão, neste país tão grande como é a Tanzânia.

Enquanto lá estávamos tivemos o segundo reencontro. O Pe. Casimiro chegou de Portugal, com notícias fresquinhas (e algumas lembranças) da família e amigos. Nessa noite tivemos uma verdadeira mesa portuguesa com nós os dois, o Pe. Norberto e o Pe. Casimiro. Aliás, quase que o português era a língua mais falada pois alguns dos padres que lá estava tinham estudado em Moçambique e havia um brasileiro, além de nós os quatro. Ainda chegámos a propor que o seminário fosse em português, mas sem grande resultado :(.

Passada a semana e regressados a casa tínhamos mais um assunto pendente para resolver: os nossos atestados médicos para mandar para a Segurança Social em Portugal, pois o processo ainda não estava pronto. Assim na terça-feira, nosso dia de folga, bem cedo, lá nos dirigimos a Tosamaganga, onde temos uma missão, para irmos ao hospital tentar arranjar um Atestado de Robustez. Seria de admirar se as coisas tivessem ficado logo resolvidas. E realmente, no hospital pediram-nos primeiro que fizéssemos uns exames antes de passarem o atestado. Coisa perfeitamente normal de se pedir, mas que nos iria dificultar um bocadinho o andamento da coisa. Viemos embora para nos aconselharmos primeiro qual melhor forma sobre o que fazer.

Durante a tarde, enquanto eu estava na internet a tratar do correio, o Paulo foi fazer, ou pelo menos tentar fazer, as compras. Acontece que o nosso carro já tem quase 200mil km e já teve alguns problemas. E assim aconteceu que as mudanças bloquearam no meio da rua!! A sorte foi que o Paulo estava perto da Paróquia da Consolata e dirigiu-se lá a pedir ajuda. Chamaram o mecânico, mas não estavam a conseguir resolver o problema. E entretanto estava a começar a chover. Então resolveram por o carro dentro do adro da igreja da paróquia, pois no meio da rua é que ele não estava bem. Só que puxar um carro daqueles, com tração às 4 rodas e completamente bloqueado... é dose!! E como um azar nunca vem só… enquanto o estavam a puxar, os homens que estavam a fazer isso acabaram por bater com o carro num pilar. O Paulo até agora ainda não percebeu como foi possível não terem visto o pilar, mas prontos, são coisas que acontecem. Ficou a porta traseira completamente empenada. Entretanto ele tinha vindo avisar-me do sucedido e eu já me tinha dirigido para a Casa Regional onde aproveitei para dar uma ajudinha ao Pe. Casimiro com o computador dele. Como não foi possível arranjar o carro nesse dia, fomos para casa com o Pe. Júlio que para nossa sorte tinha passado na Casa Regional. Como tínhamos acabado por não fazer as compras regressámos no dia seguinte. O que até foi bom pois o nosso carro já lá estava pronto, à excepção da porta. Mas afinal não era assim tão grave e não havia pressa em arranjar. Só uma questão se punha: como levar dois carros de volta a Mgongo? Simples. Cada um ia num carro, e assim foi a primeira vez que eu conduzi desde que saí de Portugal :). Até nem correu muito mal, ainda para mais porque o volante do nosso carro é do lado esquerdo (como em Portugal) e as estradas têm tantos buracos que quase nem há necessidade de conduzir do lado direito. É preciso é desviar dos buracos!

Foi uma sorte termos o carro novamente pois assim foi mais fácil ir buscar o Pe. Casimiro no sábado para vir passar a noite em nossa casa. O motivo era mais um jogo do Porto, desta vez com o Boavista. E como na Casa Regional não há a TVMoçambique, e como o Pe. Casimiro também é portista, achamos que ele iria gostar. Foi uma agradável noite portuguesa!

Durante a semana seguinte, última do mês, começaram a chegar os alunos da Escola Técnica. Fez-se uma primeira reunião com o staff da escola, agora reforçado com nós os dois, e ficou decidido que eu iria dar as aulas de Matemática e Inglês aos 3 anos, e o Paulo as aulas de Bíblia, também aos 3 anos. Quanto ao Inglês não tenho grandes dificuldades, mas quanto à Matemática é capaz de ser um bocadinho mais difícil pois o domínio do kiswahili ainda não é muito grande. E ensinar algo que à partida a maior parte dos alunos não gosta… vai ser um desafio interessante!

Apesar de estarmos na época das chuvas, este ano ainda não choveu muito. Mesmo assim tudo está muito verde, ao contrário de quando cá tínhamos chegado. As ervas crescem depressa e é preciso ir cuidando dos jardins dos campos e de todo o espaço da Missão. Assim, o trabalho agora é dividido entre o campo, o limpar das ervas e o pastoreio dos animais. Esta é uma das tarefas que os rapazes fazem, desde os maiores aos mais pequenos.

E com estas fotos dos rapazes em pleno trabalho nos despedimos.
Beijinhos e abraços para todos e continuem a mandar-nos notícias.




Teresa e Paulo
LMC
Tanzânia
 

Publicado por Teresa Silva em abril 1, 2004 04:35 PM
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