abril 01, 2004

Newsletter #12

05-Ago-2003
Olá a todos!

Mais uma vez vos escrevemos a dar-vos conta de como é a vida neste cantinho do mundo. Este mês foi bastante preenchido, desde regressos, festejos, experiências novas e problemas de todos os dias, muitas coisas aconteceram.


Como sabem, o nosso dia de folga é às terças-feiras, mas desta vez fizemos uma troca. O dia 2 de Julho foi uma quarta-feira e como era o dia do meu aniversário achamos que era boa ideia fazer a folga nesse dia :). O dia correu muito bem. Foi a primeira vez que festejei os anos fora da família e dos amigos, o que pareceu um bocado esquisito. Mas foram muito bem festejados com a nova família daqui. Logo de manhã o Paulo fez-me o pequeno-almoço e levou-o ao quarto. Mas eu, apesar de ter apreciado muito o gesto, quis aproveitar para dormir mais um bocadinho! Fomos almoçar à Casa Regional onde a Irmã Bruna não deixou passar a data em branco e fez um bolo para sobremesa. Depois durante a tarde tive a sorte de encontrar o meu irmão e alguns amigos no ciberespaço. No regresso a casa fomos também celebrar este dia com a nossa comunidade daqui. Assim o lanche dessa tarde foi um cálice de vinho do Porto (para matar saudades) acompanhado de presunto Italiano. Digam lá se não é uma boa combinação?

Mas a festa grande foi mesmo à noite com os rapazes da Faraja.
Como tradição, jantámos juntos e houve cânticos e muita alegria, seguido pelo bolo e prendas. O nosso desenhador oficial, o Isaya, até fez um quadro de propósito para a ocasião!

Entretanto as férias continuam e, além das actividades já mencionadas na última newsletter, os rapazes também estão a aprender a fazer animais com pasta de papel. Aqui está o Zawadi a preparar a pasta, e o Jonhy e Zamoioni dando os últimos retoques naquilo que viria a ser uma zebra.

Este ano choveu muito pouco e os efeitos já se estão a fazer sentir. Nós sentimos isso quando vamos ao mercado. Os preços já aumentaram, as cenouras chegaram mesmo a sofrer um aumento de 100%! Mas pior do que nós estão as populações das aldeias, sem água para as suas necessidades básicas do dia a dia. A Missão ajuda um pouco fornecendo água. E assim, duas vezes ao dia é ver a fila de crianças e mulheres com os seus baldes e bidões à espera do precioso líquido. Algumas fazem mais de 9km desde as suas casa até à Missão! Primeiro chegam as crianças, vêm marcar lugar, algumas bem pequenas. E depois vão chegando as mães, tias ou avós. Este é um aspecto da cultura deste povo que ainda está bem enraizado e que nos custa a compreender: raramente se vê um homem neste tipo de trabalhos.

No dia 10 todos os que tinham ido passar uns dias a suas casas regressaram, juntamente com os seus “encarregados de educação”. As férias para os alunos da primária estavam a acabar e era também altura da “reunião de pais”. Entre mães, tias, avós, meia-dúzia de pais ou simplesmente a responsável pela criança (mesmo sem laços de parentesco), eram à volta de 50. Estas reuniões servem para por os encarregados a par da situação escolar da criança, falar um pouco do comportamento na Faraja e, em último caso, explorar a possibilidade de a criança regressar a casa. Alguns destes rapazes deram entrada na Faraja devido a uma situação de emergência. Por exemplo, a mãe ou o pai morrerram, quem ficou a tomar conta da família não tem sustento suficiente para manter a criança e vem pedir ajuda. Por vezes, passado uns tempos, a situação económica melhora minimamente e torna-se possível que a criança vá viver para o seu ambiente familiar. Neste caso, continuamos a ajudar (economicamente) a família mas a criança sai da Faraja, tornando assim possível a entrada de mais crianças também necessitadas.

Apesar dos alunos da primária terem recomeçado as aulas, os da Chuo ainda tinham mais uma semana e meia de férias. Deste modo aproveitámos para tirarmos uns dias de descanso e ir buscar o Pe. Manuel, que estava para chegar.

Assim dia 15 pusemo-nos à estrada. Era a primeira vez que iríamos fazer tão grande viagem, sem mais ninguém a acompanhar. O único problema seria depois de chegar a Dar-es-Salaam encontrar a Casa Procura. Mas armados com um mapa da cidade e algumas instruções, seguimos confiantes.
A estrada está a ser arranjada em várias partes do seu percurso, provocando uma certa demora, mas não há alternativa! Volta e meia encontramos pequenas paragens pois só é possível usar uma faixa da estrada. Numa dessas paragens estivemos uma hora inteirinha! Mas esta estrada atravessa também o Parque Nacional de Mikumi e aí, apesar de também a velocidade ser limitada, as vistas são bem mais interessantes.
Ainda não foi desta que vimos leões, mas macacos, zebras, girafas, gazelas e até uns elefantes deram um ar da sua graça.

Logo a seguir a Mikumi fica Morogoro, e como já era uma da tarde, achamos que era uma boa altura de fazer uma pausa e também para comer. Ainda passamos no Seminário, onde o Pe. Salvatore nos ofereceu um cafezinho que nos ajudou no resto da viagem.
E eis que, passado 8 horas de viagem, chegámos a Dar. Era já hora de ponta, por isso podem imaginar a confusão! Lá íamos seguindo o mapa e estava tudo a correr bem quando reparámos que tínhamos acabado de passar a rua para onde devíamos virar. Nada de muito grave, à frente havia um cruzamento e poderíamos fazer inversão de marcha. E assim foi… até que um polícia nos mandou parar :-/. Tínhamos cometido uma infracção! Apesar de não haver qualquer tipo de sinalização nesse sentido, não era permitido fazer inversão de marcha. Lá explicamos que era a primeira vez que vínhamos a Dar e tínhamos falhado o nosso cruzamento. Depois de uma vista de olhos aos documentos e de se inteirar do nosso destino, o polícia mandou-nos seguir com um bem-vindo “Go, I forgive you!”.

No dia seguinte resolvemos dar um salto à praia. O Ir. Liduino indicou-nos o caminho e, apesar de aqui ser Inverno, lá fomos experimentar o Índico.
Realmente não havia ninguém na praia, e não estava muito quente (20 e poucos graus). Mas a paisagem era digna de um postal e passamos lá 2/3 horas.
A costa tem muitas algas, o que nos fez lembrar das praias do norte de Portugal, com a excepção de aqui ninguém as apanha, tanto para limpar a praia, como para adubar os campos. Existem também muitos ouriços, que nos deixaram algumas marcas. A água não é caldo (ainda bem) mas bastante agradável e permitindo uma entrada fácil. Nada de estar quase duas horas a tentar ganhar coragem! Ainda aproveitamos para apanhar algumas conchas e búzios.
De tarde ficamos a descansar um pouco e depois fomos às compras. É verdade! Aproveitamos para um cheirinho de “civilização” com uma ida aos supermercados. Ainda é difícil encontrar certas coisas em Iringa, mas nos supermercados já se consegue arranjar quase tudo, em especial produtos italianos!!

Na sexta-feira era o dia da chegada do Pe. Manel. Levantamo-nos cedo e, juntamente com o Pe. Parola, seguimos para o aeroporto. E após entre 14 a 15 horas de viagem o Pe. Manel finalmente chegou. Uma viagem deste tipo é sempre muito cansativa, mas como também queríamos saber das novidades de Portugal juntamos o útil ao agradável! Depois de termos regressado à Casa Procura para pousar as malas e tomar o pequeno-almoço decidimos ir até à praia onde poderíamos conversar e descontrair ao mesmo tempo. Nada como um bom mergulho no oceano para retemperar as forças :).

Domingo fizemo-nos à estrada mais uma vez, pois estava na altura de regressar. Afinal o Pe. Manel começava as aulas logo na segunda-feira seguinte!
Chegámos a Morogoro perto da hora do almoço e resolvemos ficar lá nesse dia. A principal razão foi o receio de que tornássemos a demorar muito nas paragens por causa das obras e que o anoitecer ainda nos apanhasse na zona das montanhas. O Seminário Allamano, onde o Pe. Manel vai ficar nestes quatro meses de curso, fica a 5km da cidade propriamente dita. É um local bastante aprazível, sossegado e muito verde, pois nesta zona do país chove com mais frequência.
A escola de kiswahili fica situada no Seminário Júnior Luterano, a dez minutos de bicicleta do Seminário Allamano.
Como nota de curiosidade refiro que esta zona é conhecida como o “Pequeno Vaticano”, pois existem muitas congregações aqui instaladas, não só Católicas mas também Protestantes.
E segunda de manhã, depois das últimas fotos, e de termos ido levar o Pe. Manel à sua nova escola, pusemo-nos a caminho de Iringa.
Os nossos receios não se confirmaram e a viagem de regresso demorou menos tempo do que pensávamos. Ao princípio da tarde estávamos em casa.
Na sexta seguinte, dia 25, realizou-se uma pequena celebração festiva na Casa Regional. O motivo de celebração era a ordenação de dois novos padres. O Pe. Deogratias tinha sido ordenado em Moshi no dia 12, e o Pe. Cyprian em Nyabula no dia 23. São os mais novos elementos da família Consolatina na Tanzânia, mais dois padres para as Missões. O Pe. Cyprian está destinado para a República Democrática do Congo, região de Isiro e o Pe. Deogratias para Moçambique. Ele ainda se lembrava de nós pois tinha passado por Portugal no verão de 2000.
Na celebração toda a família da Consolata estava representada. Padres, Irmãs, Irmãos e Leigos. Do lado dos padres, além dos que fazem parte da comunidade da Casa Regional estavam também os que trabalham na paróquia da Consolara aqui em Iringa. Pelas Irmãs estavam a Ir. Domízia e a Ir. Bruna, que trabalham aqui na Casa. Pelos Irmãos estava o Ir. Bonifácio. E pelos leigos estávamos nós os dois! Diferentes vocações, diferentes experiências, várias gerações. Todos reunidos no mesmo Carisma do Beato Allamano e no mesmo amor à Missão.
Aqui ficam algumas fotos desse dia. Nesta primeira temos a Ir. Domízia, 92 anos de idade, com o Pe. Cyprian e o Pe. Deogratias.
Eu com as duas Irmãs. É caso para dizer que a idade não conta!

E para terminar, um brinde.
O Pe. Inverardi, Superior dos Missionários da Consolata na Tanzânia, com o Pe. Deogratias e o Pe. Cyprian.

Com o mês de Agosto a aproximar-se, começam também a chegar os primeiros visitantes. Estes meses de férias de verão (na Europa) trazem sempre até aos países de Missão bastantes grupos. Alguns visitantes, outros que fazem pequenas experiências missionárias, a maior parte benfeitores. A Tanzânia não é excepção e, sendo a maioria dos padres da Consolata italianos, é deste país que a maior parte dos “wageni” (visitante/hóspede) vem.
E assim, dia 27 fez-se mais uma festa de boas-vindas para Maria, Bruna e Lúcio.
Bruna e Lúcio, um casal italiano, e Maria, também italiana, são alguns dos muitos benfeitores que a Faraja tem. Maria já cá vem há quatro anos, e como é professora de Inglês, dá sempre uma certa ajuda aos rapazes. Aliás, quando os conhecemos o ano passado na consagração da igreja da missão, ela estava até a dar aulas na Chuo.
Durante a festa, e no intervalo das músicas e dos teatros, alguns dos rapazes entretinham-se a jogar à sardinha! Eu nem me atrevo a experimentar! É tudo na brincadeira, claro, mas eles dão cada sapatada nas mãos uns dos outros!!! Reparem só na cara de felicidade do Isaya enquanto estava a jogar com o Paulo :)!

O fim do mês coincidiu com o fim das férias dos alunos da Chuo. E para preparar o 2º período de aulas fizemos, professores e staff, uma pequena reunião. O ponto mais importante da agenda era acerca do curso que os nossos professores estão a tirar. Uma espécie de curso de formadores, que no fim lhe dará um diploma dizendo que são professores habilitados. Até aqui tudo muito bem. Formação, seja em que área for nunca é de mais. O problema é que, nas alturas em que os nossos professores tiverem que se deslocar à escola deles, os nossos alunos ficam sem aulas!
O Pe. Júlio e o Pe. Franco inicialmente tinham concordado e dado autorização aos professores, pois tinha-lhes sido informado que os estes só estariam fora um ou outro dia de longe a longe, mas a realidade é que afinal, os professores terão que se ausentar por semanas inteiras! Foi então necessário refazer o calendário escolar de modo a tentar minimizar os efeitos nos alunos. Inclusive, quando forem os exames oficiais de fim de ano, os professores não se encontram cá!! Outra consequência desta re-calendarização foi que os alunos do 3º ano já não irão fazer os exames do finais próprios aqui da escola. É um facto que no diploma que eles levam só diz que frequentaram o curso, e não vem nada referente a notas ou médias, mas se já é difícil motivá-los a estudar havendo testes e exames, imaginem agora que nem isso precisam. Vai ser um 2º período muito “emocionante” :-/

E se o mês começou com festa, com festa acabou também.
Desta vez foi em Wasa (duas horas de viagem). Fomos a uma ordenação de um Padre pertencente à congregação dos “White Fathers”.
Foi a primeira vez que participamos de uma ordenação, aqui em África e foi também a primeira vez que fomos a Wasa.
Wasa é também uma das primeiras Missões que os padres da Consolata construíram aqui na Tanzânia. Tem mais água do que em Mgongo, mas não há energia eléctrica, funciona com gerador.
A celebração, de quase 5 horas foi muito bonita, cheia de cânticos e danças. E como sempre com as crianças a fazerem a sua parte. Vejam como esta menina (que de certo não terá mais que 5 anos) está compenetrada na sua dança!

Até estavam Wahehe (uma das tribos da Tanzânia) vestidos a rigor. E o Paulo aproveitou para tirar uma foto com eles.


E assim se passou mais um mês.
Até à próxima,

Beijinhos e abraços,
Teresa e Paulo
LMC
Tanzânia

Publicado por Teresa Silva em abril 1, 2004 04:46 PM
Comentários

Eu entrei na internt rapidinho pois não estou no meu horário de net, estou estudando em uma base missionária, que trabalha obreiros para atuar em tribos urbanas (undergrounds)e também transcultural.
Eu tenho orado pela Tanzânia a mais ou menos nove meses, gostária de saber noticias gerais e como está o cenário das tribos urbanas, drogas, violência, prostituição, quais são os movimentos mais crescentes e que mais dominam os jovens, para que eu levante intercessores por vocês.
Aguardo fotos e noticias.
Estudo em Vitória na Escola Avalanche de Missões Urbanas.

Afixado por: Delor Junior em maio 24, 2004 06:38 PM