Newsletter #12
05-Ago-2003
Olá a todos!
Mais uma vez vos escrevemos a dar-vos conta de como é a vida neste cantinho do
mundo. Este mês foi bastante preenchido, desde regressos, festejos, experiências
novas e problemas de todos os dias, muitas coisas aconteceram.

Como
sabem, o nosso dia de folga é às terças-feiras, mas desta vez fizemos uma troca.
O dia 2 de Julho foi uma quarta-feira e como era o dia do meu aniversário
achamos que era boa ideia fazer a folga nesse dia :). O dia correu muito bem.
Foi a primeira vez que festejei os anos fora da família e dos amigos, o que
pareceu um bocado esquisito. Mas foram muito bem festejados com a nova família
daqui. Logo de manhã o Paulo fez-me o pequeno-almoço e levou-o ao quarto. Mas

eu,
apesar de ter apreciado muito o gesto, quis aproveitar para dormir mais um
bocadinho! Fomos almoçar à Casa Regional onde a Irmã Bruna não deixou passar a
data em branco e fez um bolo para sobremesa. Depois durante a tarde tive a sorte
de encontrar o meu irmão e alguns amigos no ciberespaço. No regresso a casa
fomos também celebrar este dia com a nossa comunidade daqui. Assim o lanche
dessa tarde foi um cálice de

vinho do
Porto (para matar saudades) acompanhado de presunto Italiano. Digam lá se não é
uma boa combinação?
Mas a festa grande foi mesmo à noite com os rapazes da Faraja.
Como tradição, jantámos juntos e houve cânticos e muita alegria, seguido pelo
bolo e prendas. O nosso desenhador oficial, o Isaya, até fez um quadro de
propósito para a ocasião!

E

ntretanto
as férias continuam e, além das actividades já mencionadas na última newsletter,
os rapazes também estão a aprender a fazer animais com pasta de papel. Aqui está
o Zawadi a preparar a pasta, e o Jonhy e Zamoioni dando os últimos retoques
naquilo que viria a ser uma zebra.
Este ano choveu muito pouco e os efeitos já se estão a fazer sentir. Nós
sentimos isso quando vamos ao mercado. Os preços já aumentaram, as cenouras
chegaram mesmo a sofrer um aumento de 100%! Mas pior

do que nós estão as
populações das aldeias, sem água para as suas necessidades básicas do dia a dia.
A Missão ajuda um pouco fornecendo água. E assim, duas vezes ao dia é ver a fila
de crianças e mulheres com

os seus baldes e
bidões à espera do precioso líquido. Algumas fazem mais de 9km desde as suas
casa até à Missão! Primeiro chegam as crianças, vêm marcar lugar, algumas bem
pequenas. E depois vão chegando as mães, tias ou avós. Este é um aspecto da
cultura deste povo que ainda está bem enraizado e que nos custa a compreender:
raramente se vê um homem neste tipo de trabalhos.
No dia 10 todos os que tinham ido passar uns dias a suas casas regressaram,
juntamente com os seus “encarregados de educação”. As férias para os alunos da
primária estavam a acabar e era também altura da “reunião de pais”. Entre mães,
tias, avós, meia-dúzia de pais ou simplesmente a responsável pela criança (mesmo
sem laços de parentesco), eram à volta de 50. Estas reuniões servem para por os
encarregados a par da situação escolar da criança, falar um pouco do
comportamento na Faraja e, em último caso, explorar a possibilidade de a criança
regressar a casa. Alguns destes rapazes deram entrada na Faraja devido a uma
situação de emergência. Por exemplo, a mãe ou o pai morrerram, quem ficou a
tomar conta da família não tem sustento suficiente para manter a criança e vem
pedir ajuda. Por vezes, passado uns tempos, a situação económica melhora
minimamente e torna-se possível que a criança vá viver para o seu ambiente
familiar. Neste caso, continuamos a ajudar (economicamente) a família mas a
criança sai da Faraja, tornando assim possível a entrada de mais crianças também
necessitadas.
Apesar dos alunos da primária terem recomeçado as aulas, os da Chuo ainda tinham
mais uma semana e meia de férias. Deste modo aproveitámos para tirarmos uns dias
de descanso e ir buscar o Pe. Manuel, que estava para chegar.

Assim dia 15
pusemo-nos à estrada. Era a primeira vez que iríamos fazer tão grande viagem,
sem mais ninguém a acompanhar. O único problema seria depois de chegar a
Dar-es-Salaam encontrar a Casa Procura. Mas armados com um mapa da cidade e
algumas instruções, seguimos confiantes.

A estrada está a ser
arranjada em várias partes do seu percurso, provocando uma certa demora, mas não
há alternativa! Volta e meia encontramos pequenas paragens pois só é possível
usar uma faixa da estrada. Numa dessas paragens estivemos uma hora inteirinha!
Mas esta estrada atravessa também o Parque Nacional de Mikumi e aí, apesar de
também a velocidade ser limitada, as vistas são bem mais interessantes.
Ainda não foi desta que vimos leões, mas macacos, zebras, girafas, gazelas e até
uns elefantes deram um ar da sua graça.
Logo a seguir a Mikumi fica Morogoro, e como já era uma da tarde, achamos que
era uma boa altura de fazer uma pausa e também para comer. Ainda passamos no
Seminário, onde o Pe. Salvatore nos ofereceu um cafezinho que nos ajudou no
resto da viagem.
E eis que, passado 8 horas de viagem, chegámos a Dar. Era já hora de ponta, por
isso podem imaginar a confusão! Lá íamos seguindo o mapa e estava tudo a correr
bem quando reparámos que tínhamos acabado de passar a rua para onde devíamos
virar. Nada de muito grave, à frente havia um cruzamento e poderíamos fazer
inversão de marcha. E assim foi… até que um polícia nos mandou parar :-/.
Tínhamos cometido uma infracção! Apesar de não haver qualquer tipo de
sinalização nesse sentido, não era permitido fazer inversão de marcha. Lá
explicamos que era a primeira vez que vínhamos a Dar e tínhamos falhado o nosso
cruzamento. Depois de uma vista de olhos aos documentos e de se inteirar do
nosso destino, o polícia mandou-nos seguir com um bem-vindo “Go, I forgive
you!”.
No dia seguinte resolvemos dar um salto à praia. O Ir. Liduino indicou-nos o
caminho e, apesar de aqui ser Inverno, lá fomos experimentar o Índico.
Realmente não havia ninguém na praia, e não estava muito quente (20 e poucos
graus). Mas a paisagem era digna de um postal e passamos lá 2/3 horas.

A costa tem muitas
algas, o que nos fez lembrar das praias do norte de Portugal, com a excepção de
aqui ninguém as apanha, tanto para limpar a praia, como para adubar os campos.
Existem também muitos ouriços, que nos deixaram algumas marcas.

A água não é caldo
(ainda bem) mas bastante agradável e permitindo uma entrada fácil. Nada de estar
quase duas horas a tentar ganhar coragem! Ainda aproveitamos para apanhar
algumas conchas e búzios.
De tarde ficamos a descansar um pouco e depois fomos às compras. É verdade!
Aproveitamos para um cheirinho de “civilização” com uma ida aos supermercados.
Ainda é difícil encontrar certas coisas em Iringa, mas nos supermercados já se
consegue arranjar quase tudo, em especial produtos italianos!!


Na
sexta-feira era o dia da chegada do Pe. Manel. Levantamo-nos cedo e, juntamente
com o Pe. Parola, seguimos para o aeroporto. E após entre 14 a 15 horas de
viagem o Pe. Manel finalmente chegou. Uma viagem deste tipo é sempre muito
cansativa, mas como também queríamos saber das novidades de Portugal juntamos o
útil ao agradável! Depois de termos regressado à Casa Procura para pousar as
malas e tomar o pequeno-almoço decidimos ir até à praia onde poderíamos
conversar e descontrair ao mesmo tempo. Nada como um bom mergulho no oceano para
retemperar as forças :).

Domingo fizemo-nos à
estrada mais uma vez, pois estava na altura de regressar. Afinal o Pe. Manel
começava as aulas logo na segunda-feira seguinte!
Chegámos a Morogoro perto da hora do almoço e resolvemos ficar lá nesse dia. A
principal razão foi o receio de que tornássemos a demorar muito nas paragens por
causa das obras e que o anoitecer ainda nos apanhasse na zona das montanhas. O
Seminário Allamano, onde o Pe. Manel vai ficar nestes quatro meses de curso,
fica a 5km da cidade propriamente dita. É um local bastante aprazível, sossegado
e muito verde, pois nesta zona do país chove com mais frequência.
A escola de kiswahili fica situada no Seminário Júnior Luterano, a dez minutos
de bicicleta do Seminário Allamano.
Como nota de curiosidade refiro que esta zona é conhecida como o “Pequeno
Vaticano”, pois existem muitas congregações aqui instaladas, não só Católicas
mas também Protestantes.
E segunda de manhã, depois das últimas fotos, e de termos ido levar o Pe. Manel
à sua nova escola, pusemo-nos a caminho de Iringa.
Os nossos receios não se confirmaram e a viagem de regresso demorou menos tempo
do que pensávamos. Ao princípio da tarde estávamos em casa.
Na sexta seguinte, dia 25, realizou-se uma pequena celebração festiva na Casa
Regional. O motivo de celebração era a ordenação de dois novos padres. O Pe.
Deogratias tinha sido ordenado em Moshi no dia 12, e o Pe. Cyprian em Nyabula no
dia 23. São os mais novos elementos da família Consolatina na Tanzânia, mais
dois padres para as Missões. O Pe. Cyprian está destinado para a República
Democrática do Congo, região de Isiro e o Pe. Deogratias para Moçambique. Ele
ainda se lembrava de nós pois tinha passado por Portugal no verão de 2000.
Na celebração toda a família da Consolata estava representada. Padres, Irmãs,
Irmãos e Leigos. Do lado dos padres, além dos que fazem parte da comunidade da
Casa Regional estavam também os que trabalham na paróquia da Consolara aqui em
Iringa. Pelas Irmãs estavam a Ir. Domízia e a Ir. Bruna, que trabalham aqui na
Casa. Pelos Irmãos estava o Ir. Bonifácio. E pelos leigos estávamos nós os dois!
Diferentes vocações, diferentes experiências, várias gerações. Todos reunidos no
mesmo Carisma do Beato Allamano e no mesmo amor à Missão.


Aqui
ficam algumas fotos desse dia. Nesta primeira temos a Ir. Domízia, 92 anos de
idade, com o Pe. Cyprian e o Pe. Deogratias.
Eu com as duas Irmãs. É caso para dizer que a idade não conta!
E para terminar, um brinde.

O Pe. Inverardi,
Superior dos Missionários da Consolata na Tanzânia, com o Pe. Deogratias e o Pe.
Cyprian.
Com o mês de Agosto a aproximar-se, começam também a chegar os primeiros
visitantes. Estes meses de férias de verão (na Europa) trazem sempre até aos
países de Missão bastantes grupos. Alguns visitantes, outros que fazem pequenas
experiências missionárias, a maior parte benfeitores. A Tanzânia não é excepção
e, sendo a maioria dos padres da Consolata italianos, é deste país que a maior
parte dos “wageni” (visitante/hóspede) vem.
E assim, dia 27 fez-se mais uma festa de boas-vindas para Maria, Bruna e Lúcio.
Bruna e Lúcio, um casal italiano, e Maria, também italiana, são alguns dos
muitos benfeitores que a Faraja tem. Maria já cá vem há quatro anos, e como é
professora de Inglês, dá sempre uma certa ajuda aos rapazes. Aliás, quando os
conhecemos o ano passado na consagração da igreja da missão, ela estava até a
dar aulas na Chuo.

Durante a festa, e no
intervalo das músicas e dos teatros, alguns dos rapazes entretinham-se a jogar à
sardinha! Eu nem me atrevo a experimentar! É tudo na brincadeira, claro, mas
eles dão cada sapatada nas mãos uns dos outros!!! Reparem só na cara de
felicidade do Isaya enquanto estava a jogar com o Paulo :)!
O fim do mês coincidiu com o fim das férias dos alunos da Chuo. E para preparar
o 2º período de aulas fizemos, professores e staff, uma pequena reunião. O ponto
mais importante da agenda era acerca do curso que os nossos professores estão a
tirar. Uma espécie de curso de formadores, que no fim lhe dará um diploma
dizendo que são professores habilitados. Até aqui tudo muito bem. Formação, seja
em que área for nunca é de mais. O problema é que, nas alturas em que os nossos
professores tiverem que se deslocar à escola deles, os nossos alunos ficam sem
aulas!
O Pe. Júlio e o Pe. Franco inicialmente tinham concordado e dado autorização aos
professores, pois tinha-lhes sido informado que os estes só estariam fora um ou
outro dia de longe a longe, mas a realidade é que afinal, os professores terão
que se ausentar por semanas inteiras! Foi então necessário refazer o calendário
escolar de modo a tentar minimizar os efeitos nos alunos. Inclusive, quando
forem os exames oficiais de fim de ano, os professores não se encontram cá!!
Outra consequência desta re-calendarização foi que os alunos do 3º ano já não
irão fazer os exames do finais próprios aqui da escola. É um facto que no
diploma que eles levam só diz que frequentaram o curso, e não vem nada referente
a notas ou médias, mas se já é difícil motivá-los a estudar havendo testes e
exames, imaginem agora que nem isso precisam. Vai ser um 2º período muito
“emocionante” :-/


E
se o mês começou com festa, com festa acabou também.
Desta vez foi em Wasa (duas horas de viagem). Fomos a uma ordenação de um Padre
pertencente à congregação dos “White Fathers”.
Foi a primeira vez que participamos de uma ordenação, aqui em África e foi
também a primeira vez que fomos a Wasa.
Wasa é também uma das primeiras Missões que os padres da Consolata construíram
aqui na Tanzânia. Tem mais água do que em Mgongo, mas não há energia eléctrica,
funciona com gerador.

A celebração, de quase
5 horas foi muito bonita, cheia de cânticos e danças. E como sempre com as
crianças a fazerem a sua parte. Vejam como esta menina (que de certo não terá
mais que 5 anos) está compenetrada na sua dança!

Até estavam Wahehe
(uma das tribos da Tanzânia) vestidos a rigor. E o Paulo aproveitou para tirar
uma foto com eles.
E assim se passou mais um mês.
Até à próxima,
Beijinhos e abraços,
Teresa e Paulo
LMC
Tanzânia
Publicado por Teresa Silva em abril 1, 2004 04:46 PM