abril 01, 2004

Newsletter #13

09-Set-2003
Olá a todos!

Este mês fez um ano que saímos de casa! É verdade, já passou um ano inteirinho desde que chegámos à Tanzânia. Mesmo com as saudades que vamos sentindo de casa podemos dizer que passou bem depressa!


Também durante este mês Portugal foi notícia, infelizmente. As altas temperaturas que se fizeram sentir e os incêndios que assolaram o país passaram em todos os noticiários: desde a TVMoçambique, a BBCnews e até a ITV (televisão da Tanzânia).

Os rapazes que compõem a Faraja estão dividos em pequenos grupos de 6 ou 7. Cada grupo tem um capitão, um nome próprio e o seu grito de guerra. Quando chega a altura de trabalhar, cada grupo tem o seu próprio serviço, de acordo com a idade dos elementos. O Capitão é o responsável pelo bom ambiente entre todos no grupo e é quem reporta aos professores os problemas e necessidades que vão surgindo.
No primeiro fim-de-semana do mês realizou-se uma pequena competição entre os diferentes grupos. Foi uma tarde de convívio entre grandes e pequenos com muitos jogos e muita animação. Desde o jogo das cadeiras, puxar à corda, encontrar rebuçados no meio da farinha e corridas de pares, houve vencedores de todos os tamanhos e todos nos divertimos bastante.

No fim-de-semana seguinte, tivemos uma “visita” muito importante: a imagem de Nossa Senhora de Fátima visitou a Missão da Faraja House, em Mgongo.
Esta imagem foi trazida, em 1994, por um Bispo Tanzaniano que esteve em Fátima e conheceu a sua mensagem. De regresso ao seu país formou a "Chama ya Fatima", algo que se pode dizer como «Zeladores de Fátima». A sua missão é dar a conhecer e espalhar a mensagem de Fátima. Este trabalho é feito principalmente pelos catequistas responsáveis das comunidades. A imagem de Nossa Senhora, além de visitar algumas paróquias, demora-se mais tempo nas pequenas comunidades de base onde o único agente evangelizador é, muitas vezes, apenas o catequista.
No dia 13 de Maio de cada ano, faz-se um encontro a nível nacional de todos os responsáveis do "Chama ya Fatima", em Mbeya.

Desta vez coube-nos a nós a honra dessa visita.
Crianças da Faraja, alunos e professores da Escola Técnica, alguma população da aldeia de Mgongo (que é maioritariamente Luterana) e a comunidade da Missão, organizaram procissões e celebrações para melhor viver o acontecimento.
A primeira celebração foi logo no sábado de tarde, com a passagem da imagem de uma comunidade para a outra. Da comunidade de Kihesa até à Faraja são cerca de 4km, percorridos a pé, com cânticos de louvor a Nossa Senhora.

À chegada à Faraja já um altar simples estava preparado para acolher a imagem. Depois de uma pequena explicação acerca da história de Fátima rezou-se o Terço e celebrou-se a Eucaristia.
Nessa noite, a sala de televisão da Faraja tornou-se pequena para todos os que queriam saber mais acerca de 3 pastorinhos que há mais de 80 anos viram "uma Senhora mais brilhante que o sol". A população da aldeia foi convidada para assistir ao filme sobre Fátima e não se ouvia uma mosca, quando o Paulo ia traduzindo um pouco o filme e explicando a história.
Na Eucaristia de domingo tivemos a presença dos Zeladores responsáveis, que vieram dar a conhecer a mensagem de Fátima. Ainda durante a Eucaristia, as crianças ofereceram a Nossa Senhora um Terço, que elas mesmas ajudaram a fazer.

Além disso, este domingo realizou-se um baptizado.
Margaret, ou Mage como é conhecida, pediu para ser baptizada na nossa missão.
A Mage é uma rapariga jovem que sofre de poliomielite e vive numa cadeira de rodas. A sua casa fica em Nduri, uma aldeia vizinha, e há longo tempo que é ajudada pelos padres da nossa Missão.
Os padrinhos foram o Lúcio e a Bruna, os italianos que cá se encontravam.

Domingo de tarde todos se juntaram na igreja para a oração do Terço, rezando e meditando na maravilha e no exemplo de Maria, nossa Mãe. E, em particular, no pedido que Nª Sr.ª de Fátima nos faz: rezar pela paz do mundo.
Segunda-feira de tarde era a altura de Nª Sr.ª Fátima continuar a sua viagem. Mais uma vez, depois de uma pequena celebração, todos partiram em procissão pela Missão e pela aldeia, até à próxima comunidade que ia receber a visita da imagem de Nª Sr.ª
O que mais se faz notar, nestas pequenas coisas, é a devoção profunda que estas pessoas têm a Nossa Senhora.
Para quem conhece Fátima, para quem já participou nas cerimónias do dia 13, para quem já viu de perto a bela imagem de Nossa Senhora de Fátima, talvez não seja de admirar. Mas aqui, na Tanzânia, a mais de dez mil quilómetros do lugar onde ocorreram as aparições, onde a estátua de Nª Sr.ª Fátima não teria mais que 30cm, é de louvar e dar graças.
Creio que este sentimento que existe no coração das pessoas vem da "proximidade" com os pastorinhos: Crianças, de famílias simples que tinham que lutar no dia-a-dia para sobreviver, que foram abençoadas com as aparições; tudo isto traz um sentimento de esperança a este povo, também sofredor. E, como a grande maioria das crianças tanzanianas também começa a trabalhar cedo para o sustento da família, é fácil identificarem-se com Francisco, Jacinta e Lúcia.
Que a mensagem de Fátima se continue a espalhar pelo mundo e, a exemplo deste povo, todos acolham a sua mensagem para que realmente a paz possa triunfar.

Durante a semana seguinte, um vírus estranho “andou à solta” atacando a maior parte da população de Iringa e arredores. Num dos dias, na escola primária, 70 alunos ficaram em casa. O Pe. Pancotti, da Casa Regional ainda brincou com a situação a dizer que o “Sars” tinha entrado na Tanzânia. Felizmente não era nada de mais grave do que uma gripezita, mas que incomodou bastante. Alguns dos miúdos da Faraja estiveram um pouco mal durante a semana e nem nós os dois escapámos. O Paulo teve mais sorte pois escapou apenas com uma ligeira indisposição e dor de cabeça, nada que um aspegic não resolvesse. Mas a mim custou-me uma noite de sono. Ora com frio, ora com calor, pouco dormi, mas pelo menos deu para confirmar um facto interessante: o Paulo está perfeitamente inserido na realidade tanzaniana. Tanto que até já sonha em kiswahili :)!!!

Também durante esta semana o Pe. Casimiro veio até Iringa. Veio acompanhar os sobrinhos do Pe. Ossola (que é quem está em Sanza com o Pe. Casimiro) que iam regressar a Itália. No entanto, como não havia necessidade de o Pe. Casimiro fazer a viagem toda até Dar-es-Salam, combinámos em fazer um “fim de semana” português em Morogoro, que fica a meio caminho entre a capital e Iringa.

E assim, sexta-feira depois do almoço pusemo-nos a caminho. A viagem levou-nos cerca de 4 horas a fazer e, como era uma hora quente, desta vez não vimos a mesma quantidade de animais que geralmente encontramos no Mikumi. No entanto vimos um animal “novo”. Lembram-se do “Pumba” do “Rei Leão”? Pois foi mesmo esse que vimos, bem à beirinha da estrada a fazer o seu “five o’clock tea”.

Quando chegámos a Morogoro, por volta das 6 da tarde, já o Pe. Casimiro lá estava, junto com o Pe. Manel, à nossa espera.
Foi um fim-de-semana muito bom.
Foi a primeira vez que nós, os quatro missionários da Consolata portugueses a trabalhar na Tanzânia, nos encontramos, e esse breve momento serviu para matar saudades e partilhamos um pouco as nossas diferentes experiências da missão.
O Pe. Manuel está a dar-se bem na escola e a aplicar-se no estudo da língua.
O Pe. Casimiro está bastante feliz na sua Missão e contou-nos algumas novidades: Conseguiram abrir dois poços na Missão e assim podem ajudar um pouco mais as populações em volta.
O Paulo que com o Pe. Casimiro é um adepto ferrenho do FCP levou um livro do Deco, que tinha recebido, para o Pe. Casimiro ler nos seus momentos de lazer.
A noite de sexta foi dedicada aos computadores! Todos estávamos equipados com este excelente instrumento de trabalho e aproveitámos para trocar alguns programas tais como textos, música, fotos e até filmes.

Aproveitámos também para trocar alguns conselhos, desde alguns aspectos culturais até conselhos de saúde, pois os nossos corpos de "wazungo" (brancos) nem sempre estão preparados para as condições que, por vezes, deparamos na Missão.
Na manhã seguinte a eucaristia, celebrada na capela do Seminário, foi bilingue. O Pe. Manel ainda só tem um mês de aulas e assim usámos os livros dos seminaristas (em Inglês) e partilhamos em Português.

Depois fomos dar uma volta pela cidade. Morogoro está em crescimento (tem água!) e é uma cidade bonita. É maior que Iringa e nota-se bem que tem grande actividade.

Quando regressamos ao Seminário, o motorista do Pe. Casimiro já lá estava e assim ele teve que partir. A viagem até Sanza ainda lhe iria levar pelo menos umas 6horas e não é muito agradável conduzir quando começa escurecer.

Apesar de nós já cá estarmos há um ano, ainda sentimos algumas dificuldades com a língua, e assim o Pe. Manuel ofereceu-nos uma gramática de kiswahili que tinha adquirido na escola.
O Pe. Casimiro aproveitou também para deixar uns rolos de fotografias com eles, pois em Iringa, ao contrário de Sanza, é possível revelá-las.
Apesar de estarmos todos separados por vários quilómetros e horas de distância, o sentido de comunidade e união é grande. E se algum de nós precisar de alguma coisa pode comunicar com os outros, quanto mais não seja através da rádio, e mais tarde ou mais cedo o que tinha pedido chega-lhe às mãos: sejam livros, medicamentos ou até umas simples disquetes ou CDs.
Domingo depois do almoço regressamos a casa, pois segunda-feira era dia de aulas.

Para o fim da semana, o descodificador de canais avariou. Ficámos sem televisão nós e os miúdos . Durante o tempo do curso de kiswahili também não tínhamos televisão, mas agora já estávamos habituados e foi um pouco esquisito estar uma semana inteira sem televisão.

Neste fim-de-semana mais um Missionário foi chamado para junto do Pai. O Pe. Aldo Pellizari, com apenas 61 anos de idade, faleceu subitamente. Trabalhava em Makambako e nós tínhamos estado algumas vezes com ele. Era um dos padres que estava bastante aberto à colaboração com os leigos e desejava que fossem trabalhar com ele. Tinha muitos projectos em mente e a sua morte chocou-nos um pouco pois foi completamente inesperads.

Como já tinha referido, estes meses são a altura escolhida para os amigos e benfeitores das Missões visitarem-nas.
É um ir e vir de “wageni” (visitantes, hóspedes) que muito agrada aos miúdos. Até porque isso implica sempre festa com bolo e sodas! Penso que todas as crianças gostam disso, mas aqui é por demais evidente. Mesmo que não haja bolo, festa sem soda não é festa!
Assim, sábado à noite lá se fez mais uma. Para dizer adeus ao Lúcio, Bruna e Maria, e para dar as boas-vindas ao Pe. Arzelio, ao Giacomo e ao Petro. O Pe. Arzelio é um dos mais importantes benfeitores da Escola Técnica e muito tem ajudado, seja com o envio de dinheiro seja com o envio de máquinas para os alunos trabalharem.

Na terça-feira seguinte, como era o nosso dia de folga e para o Pe. Franco também poder descansar um pouco, fomos nós que acompanhamos o Pe. Arzelio, Giacomo e Petro até Pawaga. Uma Missão em que o Pe. Arzelio tinha visitado há 20 atrás, numa altura em que o Pe. Franco lá trabalhava.

Para nós foi bom pois nunca lá tínhamos ido e tivemos a oportunidade de conhecer mais uma Missão.
Pawaga fica a cerca de 80km de Iringa, mas para lá chegar demoramos cerca de 2.30 horas, porque a estrada já estava melhorada! Dantes demorava-se cerca de 4 horas. No entanto eu não lhe chamaria estrada, mas antes caminho. Curvas e mais curvas, muita terra, muita pedra, assim um pouco parecido com os caminhos de cabras e bois que ainda vão existindo nas aldeias portuguesas. Apesar da canseira da viagem (controlar um carro nestas condições é bastante complicado) vale bem a pena.
Pawaga fica no Rift Valley, a 250 metros de altitude abaixo do nível do mar. Foi iniciada há 58 anos atrás pelo Pe. Crema, que lá se instalou com uma bicicleta, uma tenda, um saco-cama e uma arma. O clima é muito quente mas existe um riozinho à beira.
A terra é boa e as vinhas que lá se encontram dão fruto duas vezes ao ano!

Nesta altura encontram-se lá os Padres Crema (regressado depois de ter andado por outras missões) com 80 anos de idade, e Antonucci com 73 anos de idade.
Não obstante a idade, ambos mostram uma jovialidade impressionante.

A Igreja da Missão está decorada com quadros da Via-Sacra que foram pintados pelo Pe. Antonucci.

E assim chegamos a mais um fim-de-semana, o último do mês.
O Pe. Manel, que completou um mês de aulas teve direito a umas mini-férias. Como na segunda-feira não iria ter aulas, aproveitou a boleia do Pe. Inverardi e veio até Iringa passar o fim-de-semana. Na sexta ficou na Casa Regional, e no sábado fomos buscá-lo para vir conhecer Mgongo e ficar connosco.
Nem de propósito, era mais uma vez dia de festa!
O adeus e obrigado ao Pe. Arzelio, Giacomo e Petro; e as boas-vindas ao Maurizio e Fabrizio, Maximiliano e Cristina (sobrinha do Pe. Franco).
Cânticos, danças, raps, pequenas peças de teatro… Os rapazes da Faraja até representaram danças tradicionais dos “wahehe”.

No domingo, o Pe. Manel teve a sua primeira eucaristia em kiswahili! Sim, porque no Seminário as eucaristias são em Inglês.

Durante a tarde aproveitamos para lhe mostrar a Missão e no fim levamo-lo de volta à Casa Regional pois como infelizmente não tinha arranjado boleia para Morogoro, iria ter que partir no expresso da manhã.

Mas ficou a promessa de voltar, até porque vai tornar a ter mais mini-férias.

E assim foi o mês de Agosto.

Beijinhos e abraços,
Teresa e Paulo
LMC
Tanzania
 

Publicado por Teresa Silva em abril 1, 2004 04:47 PM
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