Newsletter #13
09-Set-2003
Olá a todos!
Este mês fez um ano que saímos de casa! É verdade, já passou um ano inteirinho
desde que chegámos à Tanzânia. Mesmo com as saudades que vamos sentindo de casa
podemos dizer que passou bem depressa!
Também durante este mês Portugal foi notícia, infelizmente. As altas
temperaturas que se fizeram sentir e os incêndios que assolaram o país passaram
em todos os noticiários: desde a TVMoçambique, a BBCnews e até a ITV (televisão
da Tanzânia).

Os rapazes que compõem a

Faraja estão dividos em pequenos grupos de 6 ou 7. Cada
grupo tem um capitão, um nome próprio e o seu grito de guerra. Quando chega a
altura de trabalhar, cada grupo tem o seu próprio serviço, de acordo com a idade
dos elementos. O Capitão é o responsável pelo bom ambiente entre todos no grupo
e é quem reporta aos professores os problemas e necessidades que vão surgindo.
No primeiro fim-de-semana do mês realizou-se uma pequena competição entre os
diferentes grupos.

Foi uma tarde de convívio entre grandes e pequenos com muitos
jogos e muita animação. Desde o jogo das cadeiras, puxar à corda, encontrar
rebuçados no meio da farinha e corridas de pares, houve vencedores de todos os
tamanhos e todos nos divertimos bastante.
No fim-de-semana seguinte, tivemos uma “visita” muito importante: a imagem de
Nossa Senhora de Fátima visitou a Missão da Faraja House, em Mgongo.
Esta imagem foi trazida, em 1994, por um Bispo Tanzaniano que esteve em Fátima e
conheceu a sua mensagem. De regresso ao seu país formou a "Chama ya Fatima",
algo que se pode dizer como «Zeladores de Fátima». A sua missão é dar a conhecer
e espalhar a mensagem de Fátima. Este trabalho é feito principalmente pelos
catequistas responsáveis das comunidades. A imagem de Nossa Senhora, além de
visitar algumas paróquias, demora-se mais tempo nas pequenas comunidades de base
onde o único agente evangelizador é, muitas vezes, apenas o catequista.
No dia 13 de Maio de cada ano, faz-se um encontro a nível nacional de todos os
responsáveis do "Chama ya Fatima", em Mbeya.

D

esta vez coube-nos a nós a honra dessa visita.
Crianças da Faraja, alunos e professores da Escola Técnica, alguma população da
aldeia de Mgongo (que é maioritariamente Luterana) e a comunidade da Missão,
organizaram procissões e celebrações para melhor viver o acontecimento.
A primeira celebração foi logo no sábado de tarde, com a passagem da imagem de
uma comunidade para a outra. Da comunidade de Kihesa até à Faraja são cerca de
4km, percorridos a pé, com cânticos de louvor a Nossa Senhora.
À chegada à Faraja já um altar simples estava preparado para acolher a imagem.
Depois de uma pequena explicação acerca da história de Fátima rezou-

se o Terço e
celebrou-se a Eucaristia.
Nessa noite, a sala de televisão da Faraja tornou-se pequena para todos os que
queriam saber mais acerca de 3 pastorinhos que há mais de 80 anos viram "uma
Senhora mais brilhante que o sol". A população da aldeia foi convidada para
assistir ao filme

sobre Fátima e não se ouvia uma mosca, quando o Paulo ia
traduzindo um pouco o filme e explicando a história.
Na Eucaristia de domingo tivemos a presença dos Zeladores responsáveis, que
vieram dar a conhecer a mensagem de Fátima. Ainda durante a Eucaristia, as
crianças ofereceram a Nossa Senhora um Terço, que elas mesmas ajudaram a fazer.

Além disso, este domingo realizou-se um baptizado.
Margaret, ou Mage como é conhecida, pediu para ser baptizada na nossa missão.
A Mage é uma rapariga jovem que sofre de poliomielite e vive numa cadeira de
rodas. A sua casa fica em Nduri, uma aldeia vizinha, e há longo tempo que é
ajudada pelos padres da nossa Missão.
Os padrinhos foram o Lúcio e a Bruna, os italianos que cá se encontravam.
Domingo de tarde todos se juntaram na igreja para a oração do Terço, rezando e
meditando na maravilha e no exemplo de Maria, nossa Mãe. E, em particular, no
pedido que Nª Sr.ª de Fátima nos faz: rezar pela paz do mundo.

Segunda-feira de tarde era a altura de Nª Sr.ª Fátima continuar a sua viagem.
Mais uma vez, depois de uma pequena celebração, todos partiram em procissão pela
Missão e pela aldeia, até à próxima comunidade que ia receber a visita da imagem
de Nª Sr.ª
O que mais se faz notar, nestas pequenas coisas, é a devoção profunda que estas
pessoas têm a Nossa Senhora.

Para quem conhece Fátima, para quem já participou nas cerimónias do dia 13, para
quem já viu de perto a bela imagem de Nossa Senhora de Fátima, talvez não seja
de admirar. Mas aqui, na Tanzânia, a mais de dez mil quilómetros do lugar onde
ocorreram as aparições, onde a estátua de Nª Sr.ª Fátima não teria mais que
30cm, é de louvar e dar graças.
Creio que este sentimento que existe no coração das pessoas vem da "proximidade"
com os pastorinhos: Crianças, de famílias simples que tinham que lutar no
dia-a-dia para sobreviver, que foram abençoadas com as aparições; tudo isto traz
um sentimento de esperança a este povo, também sofredor. E, como a grande
maioria das crianças tanzanianas também começa a trabalhar cedo para o sustento
da família, é fácil identificarem-se com Francisco, Jacinta e Lúcia.
Que a mensagem de Fátima se continue a espalhar pelo mundo e, a exemplo deste
povo, todos acolham a sua mensagem para que realmente a paz possa triunfar.
Durante a semana seguinte, um vírus estranho “andou à solta” atacando a maior
parte da população de Iringa e arredores. Num dos dias, na escola primária, 70
alunos ficaram em casa. O Pe. Pancotti, da Casa Regional ainda brincou com a
situação a dizer que o “Sars” tinha entrado na Tanzânia. Felizmente não era nada
de mais grave do que uma gripezita, mas que incomodou bastante. Alguns dos
miúdos da Faraja estiveram um pouco mal durante a semana e nem nós os dois
escapámos. O Paulo teve mais sorte pois escapou apenas com uma ligeira
indisposição e dor de cabeça, nada que um aspegic não resolvesse. Mas a mim
custou-me uma noite de sono. Ora com frio, ora com calor, pouco dormi, mas pelo
menos deu para confirmar um facto interessante: o Paulo está perfeitamente
inserido na realidade tanzaniana. Tanto que até já sonha em kiswahili :)!!!
Também durante esta semana o Pe. Casimiro veio até Iringa. Veio acompanhar os
sobrinhos do Pe. Ossola (que é quem está em Sanza com o Pe. Casimiro) que iam
regressar a Itália. No entanto, como não havia necessidade de o Pe. Casimiro
fazer a viagem toda até Dar-es-Salam, combinámos em fazer um “fim de semana”
português em Morogoro, que fica a meio caminho entre a capital e Iringa.

E assim, sexta-feira depois do almoço pusemo-nos a caminho. A viagem levou-nos
cerca de 4 horas a fazer e, como era uma hora quente, desta vez não vimos a
mesma quantidade de animais que geralmente encontramos no Mikumi. No entanto
vimos um animal “novo”. Lembram-se do “Pumba” do “Rei Leão”? Pois foi mesmo esse
que vimos, bem à beirinha da estrada a fazer o seu “five o’clock tea”.
Quando chegámos a Morogoro, por volta das 6 da tarde, já o Pe. Casimiro lá
estava, junto com o Pe. Manel, à nossa espera.
Foi um fim-de-semana muito bom.
Foi a primeira vez que nós, os quatro missionários da Consolata portugueses a
trabalhar na Tanzânia, nos encontramos, e esse breve momento serviu para matar
saudades e partilhamos um pouco as nossas diferentes experiências da missão.
O Pe. Manuel está a dar-se bem na escola e a aplicar-se no estudo da língua.

O Pe. Casimiro está bastante feliz na sua Missão e contou-nos algumas novidades:
Conseguiram abrir dois poços na Missão e assim podem ajudar

um pouco mais as
populações em volta.
O Paulo que com o Pe. Casimiro é um adepto ferrenho do FCP levou um livro do
Deco, que tinha recebido, para o Pe. Casimiro ler nos seus momentos de lazer.
A noite de sexta foi dedicada aos computadores! Todos estávamos equipados com
este excelente instrumento de trabalho e aproveitámos para trocar alguns
programas tais como textos, música, fotos e até filmes.

Aproveitámos também para trocar alguns conselhos, desde alguns aspectos
culturais até conselhos de saúde, pois os nossos corpos de "wazungo" (brancos)
nem sempre estão preparados para as condições que, por vezes, deparamos na
Missão.
Na manhã seguinte a eucaristia, celebrada na capela do Seminário, foi bilingue.
O Pe. Manel ainda só tem um mês de aulas e assim usámos os livros dos
seminaristas (em Inglês) e partilhamos em Português.
Depois fomos dar uma volta pela cidade. Morogoro está em crescimento (tem água!)
e é uma cidade bonita. É maior que Iringa e nota-se bem que tem grande
actividade.
Quando regressamos ao Seminário, o motorista do Pe. Casimiro já lá estava e
assim ele teve que partir. A viagem até Sanza ainda lhe iria levar pelo menos
umas 6horas e não é muito agradável conduzir quando começa escurecer.
Apesar de nós já cá estarmos há um ano, ainda sentimos algumas dificuldades com
a língua, e assim o Pe. Manuel ofereceu-nos uma gramática de kiswahili que tinha
adquirido na escola.
O Pe. Casimiro aproveitou também para deixar uns rolos de fotografias com eles,
pois em Iringa, ao contrário de Sanza, é possível revelá-las.
Apesar de estarmos todos separados por vários quilómetros e horas de distância,
o sentido de comunidade e união é grande. E se algum de nós precisar de alguma
coisa pode comunicar com os outros, quanto mais não seja através da rádio, e
mais tarde ou mais cedo o que tinha pedido chega-lhe às mãos: sejam livros,
medicamentos ou até umas simples disquetes ou CDs.
Domingo depois do almoço regressamos a casa, pois segunda-feira era dia de
aulas.
Para o fim da semana, o descodificador de canais avariou. Ficámos sem televisão
nós e os miúdos . Durante o tempo do curso de kiswahili também não tínhamos
televisão, mas agora já estávamos habituados e foi um pouco esquisito estar uma
semana inteira sem televisão.
Neste fim-de-semana mais um Missionário foi chamado para junto do Pai. O Pe.
Aldo Pellizari, com apenas 61 anos de idade, faleceu subitamente. Trabalhava em
Makambako e nós tínhamos estado algumas vezes com ele. Era um dos padres que
estava bastante aberto à colaboração com os leigos e desejava que fossem
trabalhar com ele. Tinha muitos projectos em mente e a sua morte chocou-nos um
pouco pois foi completamente inesperads.
Como já tinha referido, estes meses são a altura escolhida para os amigos e
benfeitores das Missões visitarem-nas.
É um ir e vir de “wageni” (visitantes, hóspedes) que muito agrada aos miúdos.
Até porque isso implica sempre festa com bolo e sodas! Penso que todas as
crianças gostam disso, mas aqui é por demais evidente. Mesmo que não haja bolo,
festa sem soda não é festa!

Assim, sábado à noite lá se fez mais uma. Para dizer adeus ao Lúcio, Bruna e
Maria, e para dar as boas-vindas ao Pe. Arzelio, ao Giacomo e ao Petro. O Pe.
Arzelio é um dos mais importantes benfeitores da Escola Técnica e muito tem
ajudado, seja com o envio de dinheiro seja com o envio de máquinas para os
alunos trabalharem.
Na terça-feira seguinte, como era o nosso dia de folga e para o Pe. Franco
também poder descansar um pouco, fomos nós que acompanhamos o Pe. Arzelio,
Giacomo e Petro até Pawaga. Uma Missão em que o Pe. Arzelio tinha visitado há 20
atrás, numa altura em que o Pe. Franco lá trabalhava.

Para nós foi bom pois nunca lá tínhamos ido e tivemos a oportunidade de conhecer
mais uma Missão.
Pawaga fica a cerca de 80km de Iringa, mas para lá chegar demoramos cerca de
2.30 horas, porque a estrada já estava melhorada! Dantes demorava-se cerca de 4
horas. No entanto eu não lhe chamaria estrada, mas antes caminho. Curvas e mais
curvas, muita terra, muita pedra, assim um pouco parecido com os caminhos de
cabras e bois que ainda vão existindo nas aldeias portuguesas. Apesar da
canseira da viagem (controlar um carro nestas condições é bastante complicado)
vale bem a pena.
Pawaga fica no Rift Valley, a 250 metros de altitude abaixo do nível do mar. Foi
iniciada há 58 anos atrás pelo Pe. Crema, que lá se instalou com uma bicicleta,
uma tenda, um saco-cama e uma arma. O clima é muito quente mas existe um
riozinho à beira.


A terra é boa e as vinhas que lá se encontram dão fruto duas vezes ao ano!
Nesta altura encontram-se lá os Padres Crema (regressado depois de ter andado
por outras missões) com 80 anos de idade, e Antonucci com 73 anos de idade.
Não obstante a idade, ambos mostram uma jovialidade impressionante.

A Igreja da Missão está decorada com quadros da Via-Sacra que foram pintados
pelo Pe. Antonucci.
E assim chegamos a mais um fim-de-semana, o último do mês.
O Pe. Manel, que completou um mês de aulas teve direito a umas mini-férias. Como
na segunda-feira não iria ter aulas, aproveitou a boleia do Pe. Inverardi e veio
até Iringa passar o fim-de-semana. Na sexta ficou na Casa Regional, e no sábado
fomos buscá-lo para vir conhecer Mgongo e ficar connosco.

Nem de propósito, era mais uma vez dia de festa!
O adeus e obrigado ao Pe. Arzelio, Giacomo e Petro; e as boas-vindas ao Maurizio
e Fabrizio, Maximiliano e Cristina (sobrinha do Pe. Franco).
Cânticos, danças, raps, pequenas peças de teatro… Os rapazes da Faraja até
representaram danças tradicionais dos “wahehe”.

No domingo, o Pe. Manel teve a sua primeira eucaristia em kiswahili! Sim, porque
no Seminário as eucaristias são em Inglês.

Durante a tarde aproveitamos para lhe mostrar a Missão e no fim levamo-lo de
volta à Casa Regional pois como infelizmente não tinha arranjado boleia para
Morogoro, iria ter que partir no expresso da manhã.
Mas ficou a promessa de voltar, até porque vai tornar a ter mais mini-férias.
E assim foi o mês de Agosto.
Beijinhos e abraços,
Teresa e Paulo
LMC
Tanzania
Publicado por Teresa Silva em abril 1, 2004 04:47 PM