05-Fevereiro-2004
Olá a todos,
Cá estamos nós, mais uma vez no início de um novo ano, a dar-vos conta das novas por estes lados.
Como “prenda” de Ano Novo, os rapazes tiveram direito a um passeio. A ideia era ir até ao Parque Nacional do Mikumi. Os mais pequeninos como não podiam ir vieram até nossa casa onde assistiram a uma matiné com o filme de Natal da Disney.
Infelizmente a camioneta onde os rapazes seguiam avariou, e o passeio teve que terminar bem mais cedo, sem sequer chegarem às imediações do Parque.
Como é hábito em ocasiões festivas, a comunidade junta-se para o almoço/jantar. Desta vez, e aproveitando a estadia da minha mãe por cá, o almoço foi em nossa casa juntamente com os Padres Júlio e Franco.
O mês começou com a promessa de um bom ano de colheitas. A chuva foi caindo a tempo e horas e todos andavam ocupados nos campos e hortas a semear e plantar. Aqui na Faraja não foi excepção e além das culturas habituais (milho, feijão) também algumas árvores foram plantadas; perto de duas centenas. O objectivo é ajudar a segurar o solo e a fornecer alguma humidade necessária neste clima tão seco. Das centenas plantadas todos os anos, menos de 30% sobrevivem, por isso este é um hábito que é repetido todos os anos.
No dia 6 resolvemos ir visitar o P. Manel a Sadani, missão onde ele estaria até ao final do mês. Como não sabíamos bem o tempo que iríamos demorar resolvemos sair cedo. Mas de nada nos valeu! Depois de descermos a montanha e já na estrada principal fomos parados pela polícia. Até aqui nada de mais, já não era a primeira vez que acontecia. O pior foi quando o polícia resolveu dar uma boa vista de olhos ao carro! E não gostou de ver que os pneus estavam em não muito bom estado. Em abono da verdade, os pneus novos já se encontravam na missão para trocar, só estávamos à espera do mecânico. Mas não adiantou nada. Desta vez o polícia estava mesmo decidido a “mostrar trabalho”. Lá foi perguntando ao Paulo onde íamos, de onde vínhamos, e até lhe perguntou de que “tribo” ele era, duas vezes! O Paulo ainda pensou em responder-lhe que era “tripeiro”, mas achou por bem manter-se pelo português.
O polícia lá acabou por nos passar uma multa. Mas o mais estranho disto tudo é que tivemos que regressar a Iringa, para pagar a multa, e só depois poderíamos seguir viagem, pois ele tinha ficado com a carta de condução do Paulo. Há hábitos/formas de agir que ainda nos fazem um pouco de confusão.
Lá regressamos à missão onde trocamos de carro e fomos ao posto de polícia pagar a multa. Nesta altura não vos sei dizer quem ficou mais admirado por termos apanhado uma multa: se nós, se o polícia que a recebeu! Mas ele lá nos passou o comprovativo do pagamento e pudemos seguir viagem.
Chegámos a Sadani mesmo a tempo do almoço. O P. Manel já estava à nossa espera, bem disposto apesar de uma pequena constipação lhe fazer companhia.
Depois do almoço tivemos oportunidade de visitar um pouco a missão e pudemos constatar a diferença que um pouco de àgua faz.
A começar logo pela avenida maravilhosa à entrada da missão.
Talvez um dia em Mgongo também haja uma avenida desta natureza!

Infelizmente não nos pudemos demorar muito tempo pois a viagem de regresso iria demorar mais tempo. É que tinha chovido um pouco e os perto de 30 km que separam a missão da estrada principal, como são em terra batida, tornam-se um pouco perigosos.
Desta vez o perigo foi só para uma pobre galinha que se lembrou de atravessar a estrada, nós não podíamos travar senão arriscávamos a sair da estrada, assim foi a galinha que acabou sendo atropelada.
Os restantes dias desta semana foram tempo para começar a preparar as malas. É sempre uma tarefa morosa e nada agradável, especialmente se existe limite de peso.
O facto de eu acompanhar a minha mãe na viagem de regresso facilitou um pouco as coisas, já que eu não precisaria de levar quase roupa nenhuma.
E como não podia deixar de ser, houve festa de despedida na Faraja.
Com direito a algumas prendas bem típicas e até uma lição de como usar as kangas e kitenges.
No sábado, dia 10 seguimos viagem para Dar-es-Salaam.
E na bagagem trazíamos um pedido das Irmãs para, no regresso, o Paulo levar algumas encomendas. Como era um pouco complicado as Irmãs transportarem tudo até à Casa Procura, ficou combinado que no domingo iríamos nós almoçar a casa das Irmãs, em Mbagala.
Apesar de nesse domingo a comunidade das irmãs estar reduzida a metade fomos, como habitualmente, muito bem recebidos. A Ir. Ida e a Ir. Francalídia (médica e responsável pelo dispensário) presentearam-nos com um gostoso almoço, após o qual nos mostraram a missão.
Nesta altura o dispensário estava fechado para férias e limpeza, mas a maternidade não, e tivemos a oportunidade de ver um recém-nascido junto com a sua mãe



Às 21.30 da noite dirigimo-nos ao aeroporto para apanhar o avião para Portugal.
Depois do calor intenso de África e de uma viagem de 13 horas, vimos finalmente terra à vista.

O almoço foi na Casa Regional em Lisboa, e depois seguimos viagem para o Porto. Pelo caminho pude ver um pouco do que os incêndios do verão passado tinham feito à paisagem.
Entretanto, em Mgongo a vida continuava. Os efeitos da seca do ano anterior continuavam a fazer-se sentir, pois muitas famílias continuavam a bater à porta da missão a pedir ajuda. Na Faraja estas dificuldades traduziram-se em cerca de uma dúzia de rapazes novos. Alguns trazidos por parentes que já não tinham condições para os sustentar, outros pelo seu próprio pé. Como é o caso do Imani (fé) que tendo perdido os pais encontrou-se a trabalhar numa quinta, a lavar animais, em troca de sustento. Mas os donos mal lhe pagavam e o Imani, tendo ouvido falar de uma casa nos arredores de Iringa que acolhia rapazes em dificuldade, resolveu pôr-se a caminho. Nesse dia encontrou uma senhora que lhe deu um pouco de chá com leite e um pedaço de pão.
Foi o seu alimento nos dois dias de viagem até chegar à Faraja House, verdadeira casa da consolação para ele.
Agora já se encontra integrado com os restantes rapazes e com eles frequenta a escola primária que começou o seu ano lectivo por estes dias.
Com uma pequena foto de 4 dos novos rapazes nos despedimos.

Até à próxima.
Beijinhos e abraços para todos,
Teresa e Paulo
LMC
Tanzânia